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O novo papel dos avós

Idosos têm participação ativa na educação e no sustento das crianças, revela estudo da UnB

novembro de 2007
Divulgação
(Agência UnB) − A figura dos avós como aqueles que atrapalham a educação dos netos com paparicos e regras mais frouxas está cada vez mais ultrapassada. No início do século 21, os idosos passaram a ter uma participação mais ativa na educação e no sustento das crianças. Eles dão conselhos, estabelecem limites e até participam das reuniões escolares. A constatação vem de uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) que colocou as duas gerações frente a frente. De acordo com a pesquisa, outras características que marcam essa relação nos tempos modernos são o choque cultural e o medo da violência, presentes em ambos os discursos.

O estudo Meu tempo, seu tempo: refletindo sobre as relações intergeracionais a partir de uma intervenção no contexto escolar reuniu 74 adolescentes de 12 a 19 anos. De forma geral, eles ainda carregam uma visão estereotipada e preconceituosa a respeito do envelhecimento. Questionados sobre os adjetivos que mais representam a pessoa idosa, 73% citaram palavras negativas. As mais comuns foram inútil (84%), doente (64%), dependente (65%), feio (70%) e caduco (61%). Mas, quando levados a pensar na velhice pessoal e no papel dos avós dentro da família, a maioria dos adolescentes mencionou aspectos relacionados ao vigor físico e atividade.

“Houve uma mudança da função do avô na sociedade, o que contesta a idéia do idoso dependente. Mas essa ainda é uma realidade estranha para adolescentes, daí os adjetivos negativos”, analisa a psicóloga Jacqueline Marangoni, que assina a pesquisa. Segundo ela, o novo papel dos avós acompanha as transformações ocorridas no mercado de trabalho. As mulheres assumem cada vez menos funções exclusivamente domésticas e precisam deixar os filhos com outros cuidadores. Além disso, a instabilidade profissional faz com que o dinheiro da aposentadoria, em muitas famílias, seja o principal sustento.
REFLEXÃO – É raro encontrar pesquisas no país que estimulem a reflexão sobre a terceira idade dentro do contexto escolar. Nesse sentido, o estudo orientado pela professora do Instituto de Psicologia (IP) Maria Cláudia de Oliveira é considerado inovador. Os jovens, todos da 8ª série de uma escola pública do Distrito Federal, aceitaram o desafio de dizer o que pensam sobre a velhice e a adolescência. Eles relacionaram a juventude com o maior número de amigos, namoro, diversão, saúde e vigor. Já sobre os idosos, a visão passou a ser menos preconceituosa após os diálogos. Com a reflexão, os adolescentes reconheceram que nem todos são caducos e dependentes.

Segundo Jacqueline, esse conhecimento é fundamental para modificar visões estereotipadas e garantir o bem-estar do idoso. “Com o aumento do número de idosos no país, precisamos cada vez mais tomar o cuidado de não segregar nossa população por idade”, diz ela.

A pesquisadora realizou várias atividades com os alunos. A mais curiosa foi justamente a que colocou avós e netos cara a cara. Foram quatro encontros nos quais nove famílias participaram. Os parentes escreveram textos um sobre o outro, discutiram a música Couro de boi, cantada por Sérgio Reis, que fala de conflitos intergeracionais, montaram um laço com barbante, cola e linha para representar a relação entre ambos e viram fotos antigas.

O conflito de gerações ficou evidente nessa atividade. Os idosos tiveram uma educação mais rígida e se apóiam nela para disciplinar os netos. A realidade social marcada pela violência também esteve presente nos discursos de jovens e idosos. Os avós não dormem enquanto os netos estão fora de casa e têm medo de sofrer violência no ônibus, por exemplo. Já os jovens temem a violência gerada pelas armas de fogo e pelas drogas.