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O que acontece na cabeça do fumante?

Tabagismo modifica o mecanismo de liberação de dopamina no cérebro, reforçando o efeito de dependência da nicotina

abril de 2016

Várias das mais de 3 mil substâncias que compõem um cigarro são prejudiciais à saúde. A dependência, no entanto, é criada essencialmente pela nicotina. Após a inalação da fumaça, ela chega ao pulmão e, dele, atinge o sistema circulatório e o cérebro, em poucos segundos. Na membrana das células nervosas, a nicotina se liga aos receptores de acetilcolina (nAChR), iniciando assim uma cascata de sinais, o que desencadeia atividade elevada no núcleo accumbens e na área tegmentar ventral (veja imagem). Essas são importantes regiões do sistema de recompensa neuronal. O núcleo accumbens libera grande quantidade de dopamina – que transmite as sensações de desejo durante o ato de comer, durante o sexo ou consumo de drogas. O fumo frequente modifica esse mecanismo, pois os neurônios reagem aos fluxos regulares de nicotina formando mais receptores de nAChR. Isso inicialmente faz com que o efeito da substância que causa dependência seja reforçado. Com a abstinência, surgem então os sintomas causados pela falta da nicotina. 

A força de vontade na hora de parar com o cigarro é tão importante porque  somente depois de cerca de um ano sem nicotina a quantidade de receptores de nAChR retorna ao nível do de um não fumante. Nesse período é registrado o maior número de recaídas. No entanto, o fato de ser tão difícil manter-se abstinente não está ligado apenas às modificações das células neurais; os estímulos do ambiente são decisivos, e mesmo depois de anos a tentação de fumar pode continuar muito forte em situações típicas – como ao beber uma cerveja com amigos ou diante de uma máquina de vender cigarros.

A pesquisadora Amy James e seus colegas da Harvard Medical School em Belmont, Massachusetts, estudaram o efeito dessas tentações sobre o cérebro dos fumantes. Os cientistas mostraram a mulheres fumantes que queriam deixar esse hábito, alternadamente, imagens de cigarros e de objetos neutros, registrando paralelamente a atividade cerebral por meio de tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf). Então iniciou-se a desintoxicação apoiada por uma combinação de substituição da nicotina e terapia comportamental. Resultado: 12 das 21 participantes permaneceram abstinentes até o término da fase de tratamento de oito semanas. As imagens de seu cérebro mostraram que algumas regiões reagiam mais intensamente aos objetos associados ao fumo naquelas que sofreram recaída do que nas suas companheiras abstinentes: entre elas, o chamado córtex insular que dirige nossa atenção para situações internas – por exemplo, a necessidade de fumar. 

Os pesquisadores observaram ainda atividade aumentada na parte dorsal do córtex cingular anterior (dACC, do inglês dorsal anterior cingulate cortex). A área também é importante para dirigir a atenção, pois ela normalmente controla os impulsos que surgem no córtex insular, inibindo-os.

Inicialmente, parece improvável que o dACC fique mais acelerado justamente naqueles que sofreram recaída. Amy e seus colegas explicam a questão com outra observação: os neurônios do córtex cingular anterior e o córtex insular trabalhavam de forma menos sincronizada nos afetados do que nos abstinentes -– o que indicaria uma ligação mais fraca entre as duas áreas. Para manter o controle comportamental, o dACC provavelmente teria de elevar sua atividade. Assim, é muito importante para aqueles que pretendem deixar de fumar manter-se, justamente no início do tratamento, longe de estímulos desencadeadores do desejo de acender um cigarro.

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