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O que há de novo para combater a dor

Especialistas desenvolvem tratamentos médicos e psicológicos para amenizar o drama vivido por 40 milhões de brasileiros

outubro de 2012
© Wavebreakmedia/Shutterstock
por Fernanda Ribeiro

Imagine que, cozinhando, você encosta distraidamente o antebraço em uma chaleira com água fervente que está sobre uma das bocas do fogão. Certamente a incômoda sensação de que sua pele está queimando fará com que se afaste da panela em menos de um segundo. Esse curto espaço de tempo foi suficiente para que o estímulo captado pelas terminações sensoriais da derme percorresse um intrincado caminho até o cérebro, onde foi interpretado como ameaça a seu corpo. Esse processo é chamado de nocicepção.

Se os terminais sensoriais detectam um estímulo agressivo, como o calor excessivo de uma superfície, transformam-no em impulsos elétricos que são levados até a medula, onde há interneurônios, ou neurônios de associação, que modulam a transmissão do estímulo – determinam, por exemplo, a intensidade do sinal doloroso que será enviado para o cérebro, onde áreas relacionadas à dor serão acionadas, como o tálamo e o córtex, envolvidos na percepção da sensação; o córtex pré-frontal, que toma decisões como afastar o braço; o hipotálamo, que aciona reações físicas, como aceleração dos batimentos cardíacos; o tronco encefálico, que nos coloca em estado de alerta; o sistema supressor endógeno, que libera serotonina e endorfinas, opioides produzidos pelo próprio organismo para combater a sensação desagradável. Assim funciona a dor aguda, um sinal saudável de que algo agrediu nosso organismo. Ela costuma cessar logo que o estímulo cessa ou quando tratamos o problema orgânico que a causa.

Entretanto, na dor crônica, a resposta neural à dor persiste mesmo quando a causa inicial é tratada. Considerada um fenômeno de má adaptação, ela pode ocorrer por deficiência tanto do mecanismo de percepção como o de inibição da propagação do impulso elétrico doloroso: diante de sinais gerados repetidamente, os circuitos neurológicos podem se alterar quimicamente, tornando-se mais sensíveis aos estímulos de dor ou mais resistentes ao sistema inibitório.

Há várias teorias sobre o funcionamento da dor crônica, mas a ciência ainda não consegue explicar por que ela surge. A dor crônica não é um prolongamento da aguda. Especialistas afirmam que os dois tipos são muito diferentes – enquanto a primeira é uma espécie de alarme que acaba quando o problema é resolvido, a segunda é muito semelhante, de acordo com estudos recentes, a processos neuroquímicos da memória, como se uma “recordação dolorosa” fosse inscrita no organismo e acessada periodicamente.

Talvez um dos maiores impedimentos para o alívio, ou mesmo para a cura, da dor crônica seja o mito de que não há tratamento. A medicina conta com remédios, novas técnicas cirúrgicas e também com tecnologias menos invasivas para atenuar a dor e possibilitar que o paciente tenha melhor qualidade de vida. Combinadas com psicoterapia e terapias complementares, como relaxamento, condicionamento físico e fisioterapia, elas trazem novas esperanças para quem sofre.

Algumas dores crônicas não respondem tão bem ao tratamento com medicamentos, como as neuropáticas – hipersensibilidade das vias de transmissão do impulso doloroso, que pode ser causada pelo herpes-zóster, por infecção por HIV ou derrame vascular cerebral, entre outros fatores. Para esses casos, uma tecnologia pouco agressiva, o neuroestimulador medular (NM), tem revelado bons resultados. “O aparelho implantado na coluna vertebral envia sinais elétricos que interferem na transmissão da dor”, explica o neurocirurgião Eduardo Barreto, doutor em medicina pela Universidade Benjamin Franklin, em Berlim.  Outro recurso, não invasivo, é a estimulação magnética transcraniana, estudada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP): eletrodos colocados sobre a cabeça aplicam ondas eletromagnéticas no cérebro e estimulam áreas envolvidas no processamento da dor. Validada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em maio, ela é usada no tratamento de depressão e na avaliação da resposta do paciente a um futuro implante neurocirúrgico.

Fernanda Ribeiro é jornalista, editora-assistente de Mente e Cérebro

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