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O rei e o herdeiro

Protagonista vivido por George Clooney experimenta, ao mesmo tempo, o poder e a fragilidade diante da tragédia pessoal e da possibilidade de fazer escolhas e resgates

 

abril de 2012
DIVULGAÇÃO
por Marta Okamoto e Patricia Porchat

Os descendentes, filme baseado no romance da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings, conta a história de Matt King, interpretado por George Clooney, importante advogado no Havaí, responsável por administrar centenas de hectares de terras na ilha de Kauai, herdada por ele e seus primos. A propriedade, em vias de ser vendida por um valor milionário para a construção de um resort, pertenceu à realeza havaiana do século 19, da qual a família descende.

Em sua posição de importante homem de negócios – apesar da bermuda e das camisas floridas –, King administra as riquezas acumuladas. Isolado em sua missão de rei de um pequeno reinado, tem notícias distantes de quem está muito próximo a ele… ou deveria estar. O “castelo” começa a ruir quando sua mulher sofre um acidente de barco e entra em coma, estado do qual não sairá mais. Ao se reaproximar das filhas Scottie, de 10 anos, e Alex, de 17 anos, o advogado se dá conta de que, para ele, as garotas eram pouco mais que duas estranhas, mas que, ainda assim, descendiam dele.

Uma discussão com a filha mais velha abre portas para aspectos da vida da esposa que King desconhecia. Estarrecido e perturbado com a descoberta, parte em busca do reconhecimento de si mesmo, resgatando os papéis de marido e de pai que supostamente deveria ocupar. O filme acompanha esse percurso e coloca em pauta uma reflexão sobre aquilo que a morte lhe legou: terras, dinheiro, segredos, afetos e responsabilidades.

Nessa jornada pessoal, que transcorre enquanto a mulher permanece em coma, no hospital, ele tem a companhia das duas filhas e de um amigo de Alex que havia perdido o pai fazia pouco tempo. Aqui a morte parece funcionar como o grande ordenador simbólico, a única lei à qual cada um está submetido: a morte sempre chega para todos, mais cedo ou mais tarde – o que nos põe em posição de transmitir algo para durar através do outro, numa espécie de compromisso que se perpetua através das gerações.

Matt King está marcado por esse compromisso: recebeu terras de seus antepassados e é o advogado constituído por seus primos para gerir o espólio – sua decisão é soberana para a venda da última propriedade que pertence à família. Ao mesmo tempo, instalado no lugar de pai, deverá ter algo a transmitir a suas filhas. Inevitavelmente se defrontará com o valor simbólico daquilo que é herdado e daquilo que será passado adiante.

A partir da cena traumática do acidente da mulher de King, o espectador acompanha

O encontro do protagonista com o significado do passado em sua vida atual. Ao longo do filme, é possível perceber que sua história não é apenas individual, mas está inserida em um sistema de tradições e códigos simbólicos, próprios de certo tempo e específicos de determinado grupo.

Descobrindo o valor simbólico daquilo que herdou, King inscreve seu lugar como mais um elo de uma cadeia de gerações. Identificando o grupo ao qual pertence, ele se torna dono de uma história e de um lugar. Segundo o filósofo Jacques Derrida, é preciso saber reafirmar o que vem antes de nós e nos comportar diante disso como sujeitos livres. Não podemos escolher nossa herança, mas é possível escolher preservá-la viva, reinterpretá la.

Os descendentes aborda a questão da transmissão psíquica na atualidade, tema sobre o qual a psicanálise vem se debruçando há algum tempo. Uma das hipóteses do psicanalista francês René Kaës é que a própria ideia de transmissão esteja em crise. Por uma série de características daquilo que chamamos de “modernidade”, o mundo de hoje deflagra incertezas sobre os vínculosentre as gerações, sobre os valores e os saberes a transmitir, e até questiona quais são de fato os destinatários daquilo que se transmite. É nesse lugar da dúvida e da incerteza, de um possível vazio simbólico, que a psicanálise invoca a necessidade de se fazer representar a transmissão.

Para escrever a própria história, o sujeito deve resgatar pela memória o tempo passado, mas não apenas como lembrança. Os acontecimentos familiares, além de recordados, devem ser representados, apropriados pelo sujeito, inscritos de algum modo no tempo atual. É assim que termina o filme. Destronado de seu narcisismo, o rei abalado e abatido se torna pai, viúvo e legítimo herdeiro de seus ancestrais.

Os Descendentes. 117 min – EUA, 2011. Direção: Alexander Payne. Elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Matthew Lillard, Beau Bridges, Robert Forster, Rob Huebel, Michael Ontkean, Mary Birdsong, Sonya Balmores, Amara Miller