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O retorno ao princípio da cisão

Lista atual de sintomas recupera descrição feita pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857-1939) 

abril de 2013
Christian Ingo Lenz Dunker
Bruce Rolff/Shutterstock
Até os anos 70 o paradigma bleuleriano da esquizofrenia permaneceu como principal forma de fundamentação do diagnóstico psiquiátrico em uma psicopatologia. Pode-se dizer que a esquizofrenia está para a psiquiatria como a histeria está para a psicanálise, ou seja, ela não é apenas uma doença, mas a matriz de inteligibilidade a partir da qual se pode deduzir o conjunto por suas regras de formação. A esquizofrenia foi desdobrada em inúmeros outros grupos, formas de reação e tipos de personalidade estabelecendo uma espécie de via régia pela qual a psicanálise e outras teorias psicopatológicas se instalaram, aproximando-se da psiquiatria.

Inversamente, a experiência de Bleuler causou progressiva assimilação de ideias psiquiátricas dentro da própria psicanálise. Esquemas etiológicos e diagnósticos ausentes na teoria de Freud, bem como quadros não examinados pelo criador da psicanálise, foram gradualmente sendo lidos psicanaliticamente na pista aberta por Jung e Abraham e depois pela introdução fundamental da posição esquizoparanoide por Melanie Klein.

Contudo, desde o pós-guerra ganha força a interpretação de que a esquizofrenia é um dos quadros da psicose. Os signos diagnósticos atualmente considerados remontam ponto por ponto às descrições de Bleuler: delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento desorganizado ou catatônico, sintomas negativos (embotamento, alogia, abulia).

Um importante adendo à concepção do psiquiatra foi representado pela divisão proposta por Kurt Schneider entre sintomas de primeira e segunda ordem, sendo o primeiro caso caracterizado por vozes interpelativas, argumentativas ou que narram os atos e pensamentos do sujeito, as vivências de influência corporal, os raptos de pensamento, os sentimentos de autorreferência e as percepções delirantes. 

Os desenvolvimentos descritivos da esquizofrenia nem sempre foram acompanhados da teorização que caracterizava a abordagem de Bleuler. Apesar disso, a esquizofrenia foi a primeira grande entidade psiquiátrica a ser reconhecida como invariante graças ao International Pilot Study of Schizophrenia, um trabalho transcultural patrocinado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas seus índices clínicos incluíam: ausência de crítica (percepção de que ele mesmo está doente), alucinações auditivas, sonorização do pensamento, embotamento afetivo além de ideias e delírios de autorreferência. A expansão descritiva da esquizofrenia se fez acompanhar de uma inversão da perspectiva de Bleuler. Para ele alucinações e delírios deviam ser considerados sintomas secundários  em relação às perturbações da capacidade associativa. Na década de 70 o conceito de esquizofrenia passa a viver uma retração, principalmente atribuída aos desenvolvimentos da psiquiatria americana. A recuperação das ideias do neurologista americano Hughling Jackson, que influenciara Freud, reforçou a distinção entre sintomas positivos (alucinação e delírio) e sintomas negativos (abulia, perda de funções). Isso contribuiu para que os critérios diagnósticos da esquizofrenia passassem a exigir um período de evolução continua de ao menos seis meses. Os sintomas de primeira ordem, propostos por Schneider, ganhavam importância em relação à divisão. 

O aparecimento dos neurolépticos típicos, como o haloperidol, descoberto em 1952, e posteriormente dos neurolépticos atípicos, como a risperidona olanzapina, modificou completamente a antiga abordagem baseada no uso de choques insulínicos e elétricos, contenção e isolamento. As abordagens psicoterapêuticas da esquizofrenia apresentam resultados regulares, em diferentes abordagens, dependendo muito da condição de acesso ao paciente e da sustentação social e familiar de seu acesso ao tratamento. O escalonamento de uma semiologia empírica, de tom kraepeliniano, voltava a triunfar sobre as pretensões explicativas e etiológicas da linhagem de Bleuler. Finalmente incorporou-se um critério bleuleriano esquecido: a responsividade ao tratamento e a curabilidade. Mas agora este critério é extraído da resposta à medicação. Assim surgem dois novos tipos de esquizofrenia: a síndrome positiva representada por um quadro agudo, reversível, com boa resposta ao tratamento neuroléptico, e uma síndrome negativa na qual se encontra uma má resposta ao tratamento. Considera-se que a esquizofrenia atinja 1% da população, variando sua incidência entre culturas. Os tipos mais frequentes de esquizofrenia tendem a aparecer entre os 15 e 25 anos de idade. Hoje, considera-se que o tratamento mais adequado da esquizofrenia deve investir fortemente no emprego de agentes farmacológicos, na psicoterapia, na integração social, bem como no suporte familiar.

A esquizofrenia esteve presente em todos os grandes desenvolvimentos da psicanálise ao longo do século 20, em suas diversas escolas e tradições clínicas. A convergência de problemas teóricos, práticos e clínicos que este quadro impunha favoreceu não apenas o desenvolvimento de diferentes estratégias de tratamento, mas também o diálogo entre diferentes concepções. Todavia, assim como aconteceu com a histeria, o sucesso do quadro foi também a razão de seus problemas. A inflação de tipos de esquizofrenia tornou o termo cada vez menos específico e sua semiologia cada vez mais dispersa. É neste contexto que os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri tentaram estabelecer uma espécie de retorno à radicalidade da esquizofrenia, e a seu princípio de divisão.

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