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O tecido dos significantes

Com duas capas – como se fossem dois textos que se encontram no meio – o livro de Luciana Salum convida o leitor a ler “de trás pra frente”, “de ponta-cabeça” e ao contrário. Como se nada fosse o que parece ser

junho de 2017
Roberto Propheta Marques
DIVULGAÇÃO

No prefácio de Fragmentos – Sobre o que se escreve de uma psicanálise, o psicanalista Christian Dunker escreve: “Se as coisas caminham bem, a história de um sintoma se confunde com a história de uma análise. E a história de uma análise se confunde com a história de uma vida. E a história de uma vida vivida se confunde com a história de uma vida por viver”. Desnecessário acrescentar que a história de uma pesquisa é indissociável das contingências subjetivas que lhe atravessam.

O livro de Luciana Salum pode ser apresentado por aquilo que o antecede. O que não é somente prefácio... Para usar uma expressão da autora, é um tecido de significantes, jogo de palavras cruzadas cujos fragmentos se compõe e decompõe para fazer as vezes de vestimenta às diferentes personagens encarnadas pela primeira pessoa, da qual não se poderá dizer, em Fragmentos, que seja do singular. Salum mostra como qualquer singularidade é plural.

Antes daquele prefácio encontra-se a epígrafe: “Meu caro amigo, estou lhe remetendo um pequeno trabalho do qual não se poderia dizer sem injustiça que não tem pé nem cabeça, já que, pelo contrário, tudo nele é ao mesmo tempo cabeça e pé, alternados e reciprocamente”. O leitor é convidado por Baudelaire, a ler “de trás pra frente”, “de ponta-cabeça” e ao contrário. Como se nada fosse o que parece ser, como se tudo fosse ao mesmo tempo idêntico a si e radicalmente outro. Será preciso, pois, desafiar o texto para acontecer como leitor.

O livro tem “outro lado”. Do “lado de lá”, encontra-se outro prefácio. Contardo Calligaris nos surpreende ao articular a psicanálise como a descoberta de uma criança morta. É assombroso que isso já estivesse colocado, desde antes, no próprio horizonte dos escritos em Fragmentos. O leitor há de reconhecê-lo na escritura. Sem pretensão de avançar na leitura, o que está em questão é mostrar que até mesmo os prefácios são fragmentos do livro.

Isso nos leva ao que vem antes do começo. Num único exemplar, a pessoa tem duas obras em mãos. Elas são simétricas, como direito e avesso, mas são também absolutamente distintas, como avesso e direito. Há um único ponto que se repete, a dedicatória. O leitor pode tomá-la como fragmento fundamental de todo o livro. Sendo o real o que insiste, a escrita dessa pregnância traz um enigma, como se o já inscrito no significante desde antes da fala retornasse ao longo da vida, num ordenamento a posteriori da mais arbitrária contingência. Esse retorno se dá em Fragmentos. Basta que haja um leitor capaz de rastrear os restos e com eles construir narrativas, afinal, o inconsciente é o que se lê,como insiste Salum ao repetir Lacan.

É assim que o livro não se cansa em afirmar que para existir escrito é preciso haver leitor. O ato de leitura, por meio do qual o escritor advém outro no escrito, permite que a terceira pessoa abrigue a potência de negação da primeira. Há, assim, a possibilidade de a escrita ser tomada como prática criativa que confronta a identidade em seus limites. Escrita de gozo, dizia Roland Barthes, interlocutor central de Salum.

Não é de outro modo que a autora se reencontra no texto como outra de si, “eutra”, diz ela, citando algum outro que não deixa de oferecer uma primeira pessoa auxiliar. O leitor há de encontrar no escrito os rastros destas pistas. Eutra é o que resta da autora após atravessar a tortura de seu nome próprio, carregando em seu corpo algo de um olhar azul que será reencontrado como traço fundamental de seu universo imaginário. Fragmentos é o percurso de um luto.

Antes, sua dedicatória seria “a nós”. Algo que só depois pôde ser reescrito como: “Para Lucila, minha irmã”. O atravessamento da escrita permitiu que o pronome da primeira pessoa do plural sofresse uma espécie de decomposição em que o novo pronome, “minha”, servisse tanto como índice de separação quanto como denúncia da identidade. Como se fosse dizer: “Ali onde éramos indistintas, advenho outra, inscrevendo-me fora”.

“I’ll take that drink now. I’m beginning to feel satisfied, and that always makes me thirsty” (em tradução livre: “Vou tomar aquele drinque agora. Estou começando a me sentir satisfeito e isso sempre me deixa sedento”). São palavras de Paul Auster como epígrafe ao prefácio de Calligaris. É como se fosse preciso falar outra língua, aludindo à morte e convidando à embriaguez, a escrita parte daquilo que é antes sensível que significante, cujas metáforas perpassam o texto como em uma dança. Lá não se lê palavras, mas joga-se com as vestes do significante e com a nudez de um corpo despedaçado. Corpo despedaçado em sílabas azuis. Os fragmentos de Salum, é preciso ter olhos para lê-los.

Assim o texto revela a autora somente a partir do que nunca lhe será próprio. A tortura do pronome pessoal, o despedaçamento da primeira pessoa, eis a forma como o texto grita que corpo é coisa que só advém naquilo em que qualquer fragmento faça sujeito com o outro. Corpo é coisa que se faz, no mínimo, a dois. A partir daí o livro convida ao múltiplo.

ROBERTO PROPHETA MARQUES é psicanalista, mestre em psicologia clínica e membro do Laboratório Jacques Lacan do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Fragmentos – Sobre o que se escreve de uma psicanálise. Luciana K.P. Salum. Iluminuras, 2016. 164 págs. Versão impressa: R$ 47,00. Versão digital: R$ 23,50.

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