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O tempo segundo os aimarás

Para povo tradicional dos Andes, o futuro está atrás e o passado à frente.

setembro de 2006
A idéia de que o futuro está "diante de nosso nariz" e de que o passado fica "às nossas costas" está presente em todos os povos e idiomas estudados até hoje. A única exceção parece ser um povo indígena que habita a região andina do norte do Chile. Segundo estudo publicado na Cognitive Neuroscience, os aimarás usam a palavra "naira", que pode significar"olho", "frente" ou "vista", quando querem se referir ao passado.

Já o termo "ghipa", que significa "atrás" e "costas", é usado para indicar os acontecimentos futuros. Além do idioma, Rafael Núñez, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Eve Sweetser, em Berkeley, estudaram também o repertório gestual dessas pessoas e observaram que, principalmente os idosos, apontam para trás ao falar do futuro e para frente ao se referir ao passado.
O que poderia distinguir os aimarás de todas as culturas conhecidas é o grande valor que eles dão ao fato de o interlocutor ter ou não visto as coisas das quais fala. "Estamos diante de uma cultura que dá muito valor à evidência factual. Assim, faz todo sentido colocar o passado - o que já foi visto - à frente, e o futuro, que não se pode ver, às costas", diz Núñez. Segundo ele, a frase "Colombo descobriu a América em 1492", por exemplo, não tem cabimento no idioma aimará a menos que mencione a pessoa que testemunhou o acontecimento.

Esse povo andino chama a atenção do Ocidente desde os tempos da colonização espanhola das Américas. Jesuítas já haviam notado, no século XVII, que eles trabalhavam conceitos abstratos de forma muito diferente. Mais recentemente, alguns pesquisadores começaram a se empenhar em estudar os princípios do que vem sendo chamado de "lógica andina" para aplicações em engenharia de computação. No entanto, segundo Núñez, ninguém havia percebido até hoje um "mapeamento do tempo tão radicalmente diferente".