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O traquejo social dos corvos

Pássaros memorizam rostos e dividem informações importantes para a sobrevivência do seu grupo

outubro de 2013
Guci_55/Shutterstock
Aves da família Corvidae – que inclui corvos, gralhas e gaios – podem ser tão sociáveis quanto golfinhos e macacos. Estudos recentes mostram aspectos intrigantes da inteligência interpessoal desses animais e apontam pistas sobre como nossa própria capacidade de socialização pode ter evoluído.

Um artigo publicado na Ethology revela que esses pássaros reagem, por exemplo, a rostos humanos: um corvo levanta voo mais rapidamente quando uma pessoa que se aproxima olha diretamente para ele do que quando ela passa sem olhá-lo. Isso foi observado por um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual Humboldt, no Canadá, que registrou o comportamento desses animais em três diferentes locais da cidade americana de Seattle. Segundo a bióloga Barbara Clucas, uma das autoras, outros animais tendem a evitar pessoas em qualquer situação, independentemente do olhar delas. Isso pode significar, portanto, que os corvos desenvolveram esse comportamento para se adaptar à vida nas grandes metrópoles.

Estudos anteriores já mostraram que essas aves são capazes de aprender comportamentos de proteção umas com as outras. A equipe coordenada pelo biólogo John Marz-luff, da Universidade de Washington, usou máscaras para testar a memória dos corvos. Os pesquisadores passearam em parques de Seattle cobrindo o rosto com dois tipos diferentes de máscara. Os que usavam um modelo capturaram pássaros; os que estavam com o outro, apenas caminharam. Cinco anos depois o biólogo repetiu o experimento e verificou que os bichos tendiam a fugir mais prontamente das pessoas com a máscara que correspondeu à captura. Enquanto levantavam voo, emitiam sons de alerta. A hipótese é que os corvos não apenas a associaram ao perigo como passaram essa informação a seus filhotes e outros membros do grupo – um comportamento cognitivamente complexo e raro no reino animal.

“Uma coisa é aprender com a própria experiência, outra é observar que algo que acontece com outros indivíduos e inferir que pode acontecer com você também”, diz Marzluff. Um aspecto intrigante: o cérebro do corvo ativa os mesmos caminhos visuais do humano para reconhecer rostos. Um estudo de 2012 usando tomografia por emissão de pósitrons (PET) mostrou que a visão de rostos corresponde ao aumento da atividade da amígdala, do tálamo e do tronco cerebral, áreas relacionadas com o processamento emocional e aprendizado do medo. 

É possível que esses traços tenham evoluído de um ancestral comum que existiu há 300 milhões de anos. Essas semelhanças entre corvos e humanos seriam, portanto, um caso de evolução convergente, ou seja, quando dois organismos muito diferentes desenvolvem as mesmas características de forma independente. “A evolução chegou à mesma solução uma e outra vez” , diz o biólogo especialista em corvos Alex Taylor, da Universidade de Auckland na Nova Zelândia.

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