Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Oferecer dinheiro a usuário ajuda a reduzir consumo de droga

Pesquisadores temiam que os dependentes usassem o pagamento para comprar maiores doses da substância, mas os resultados mostram exatamente o oposto

março de 2015
Cara Tabachnick, com informações complementares da redação de Mente e Cérebro
SHUTTERSTOCK

Muitos dependentes químicos têm dificuldade para manter o emprego. No entanto, muitos especialistas acreditam que a garantia de uma renda estável é um estímulo muito eficaz para reduzir o uso de drogas. O psiquiatra Kenneth Silverman e seus colegas da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins criaram “unidades terapêuticas de trabalho”. As pessoas em tratamento passam frequentemente por testes de sangue e recebem recompensa financeira quando evitam o consumo, além de contarem com inúmeras “segundas chances”.

No ambiente de trabalho terapêutico, os empregados em tempo integral concordam em passar por exames pelo menos três vezes por semana. A ideia é verificar se há indícios de consumo e medir a diminuição das substâncias no organismo. Caso haja sinais de uso, voltam para casa (mas podem retornar no dia seguinte e tentar novamente). Se não, podem trabalhar o dia por um salário por hora até o próximo teste.

São pagos com frequência. Além disso, contam com bônus financeiro se cumprem as metas relacionadas à diminuição do consumo de drogas ou ao trabalho, como não usar nenhuma substância por determinado período ou cadastrar dados no sistema de forma mais eficiente. No início, os pesquisadores temiam que oferecer dinheiro a eles poderia deixá-los tentados a comprar drogas, mas os resultados mostram exatamente o oposto: os trabalhadores que recebem hora extra evitam o consumo por mais tempo do que aqueles que simplesmente ganham o salário por hora.

As teorias a respeito das estratégias das unidades terapêuticas de trabalho foram validadas por diversos ensaios clínicos randomizados, utilizando dados do regime de treinamento ou do trabalho associado à comunidade de pesquisa Johns Hopkins. Alguns experimentos envolviam usuários de cocaína; outros testaram dependentes de opiáceos com tratamento assistido com medicação, como metadona ou naltrexona. Os estudos mostraram consistentemente que cerca de 80% dos indivíduos que participaram do regime de trabalho terapêutico permaneceram afastados do uso e de comportamentos relacionados com a dependência, em comparação com 50% entre os grupos que trabalharam sem incentivos financeiros.

Uma avaliação de 2012 dessas unidades aponta que o método favorece altamente a abstinência em longo prazo, talvez porque considere as peculiaridades da recuperação de dependentes – é de esperar recaídas. No entanto, se a sobriedade continua a oferecer recompensas imediatas, há grandes chances de permanecerem afastados das drogas. Em 2014, o Instituto Federal da Política Nacional de Controle de Drogas (ONDCP, na sigla em inglês) conferiu honra a Silverman pelo conceito de unidades terapêuticas de trabalho.

A estratégia remete, no Brasil, a uma iniciativa colocada em prática há cerca de um ano pela prefeitura de São Paulo, conhecida como programa De Braços Abertos. Moradores de rua usuários de crack são cadastrados e encaminhados para morar em quartos de hotéis na região central da capital. Recebem três refeições por dia e remuneração diária por serviços como varrição de ruas. O objetivo é a redução lenta e gradual do consumo. Os resultados até o momento parecem animadores: antes do programa, circulavam pela Cracolândia, como é conhecida a área onde há intenso comércio e consumo de crack, cerca de 1.500 usuários. Hoje, são cerca de 300 por dia, segundo dados da prefeitura.

Leia o texto completo: "O que há de novo para tratar dependência química", que faz parte da edição de março de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/184InXR

Leia mais
As semelhanças entre o jogo patológico e o uso de drogas
Jogadores e usuários de drogas compartilham predisposição genética, mas só recentemente o transtorno foi reconhecido como dependência

Epigenética da dependência química
Estudos mostram que exposição continuada à cocaína pode alterar atividade dos genes no centro de recompensa do cérebro, e as mudanças podem ser permanentes