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Estímulo cerebral altera percepção de obras de arte

Técnica de aplicação de corrente elétrica no córtex pré-frontal apura o senso estético, pelos menos por algum tempo

maio de 2014
Lila Stanners
Nanette Hoogslag/Ikon Images/Latinstock
O conceito de beleza parece misterioso e subjetivo. Por que algumas pessoas são tocadas, por exemplo, pela fotografia de um filme ou pelo trabalho de um mestre da pintura enquanto outras não acham nada de extraordinário? É uma questão que há décadas intriga cientistas que investigam se há estruturas do cérebro que respondem especificamente à percepção do belo, como a neurocientista Zaira Cattaneo, da Universidade Milano-Bicocca, principal autora de um estudo que correlaciona estimulação elétrica de determinadas partes do cérebro ao aprimoramento temporário da capacidade de apreciar a arte.

A equipe de Zaira exibiu a 12 voluntários 70 pinturas e esboços abstratos e 80 pinturas e fotografias representacionais (próximas à realidade) e pediu que eles dissessem o quanto cada uma os agradava. Em seguida, alguns deles foram submetidos a uma sessão de estimulação elétrica transcraniana por corrente direta (ETCD), técnica não invasiva que envia pequenos impulsos elétricos para o cérebro através de eletrodos posicionados sobre o crânio. Um grupo de controle recebeu estimulação placebo, isto é, sem corrente elétrica.

A área estimulada pelos pesquisadores foi o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, localizado logo atrás da testa, região reconhecida por vários estudos anteriores como crítica para processamento emocional. De acordo com os resultados publicados em 2013 no Social Cognitive and Affective Neuroscience, o grupo que recebeu a corrente elétrica valorizou mais imagens conceituais em outro teste, semelhante ao primeiro, realizado logo depois.

Zaira acredita que a estimulação facilitou a integração entre o mero reconhecimento de objetos e a apreciação mais emotiva, artística, das imagens figurativas: aspectos abstratos foram processados de maneira diferente da habitual. Este estudo é um dos vários de uma linha mais recente que analisa os efeitos das tecnologias não invasivas de estimulação cerebral sobre a cognição. Alguns experimentos já mostraram que estimular certas áreas permite que pessoas resolvam problemas de matemática ou quebra-­cabeças que anteriormente não conseguiam.

Outro trabalho sugere que essas técnicas podem aumentar a aprendizagem motora, ajudando atletas ou músicos a aprender melhor um novo esporte ou instrumento. Especialistas fazem questão de esclarecer, porém, que as alterações são discretas, temporárias, e suas possibilidades devem ser exploradas com cuidado. A ideia de que a indução por corrente elétrica pode criar gênios permanece apenas no campo da ficção científica.

Essa linha de pesquisa representa, no entanto, novas perspectivas de tratamento para os transtornos de humor. “No caso da depressão, há perda do prazer de experimentar a vida, de sentir bem-estar ao olhar para algo bonito, seja uma paisagem, seja uma obra de arte”, diz Zaira, mencionando que a atividade do córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo é hipoativa (abaixo do normal) em pessoas com depressão. “Descobrir processos envolvidos na percepção artística pode devolver a vivência do belo a essas pessoas.”

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