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Onde não moram as memórias

Cientistas chegam à conclusão de que não basta usar drogas para apagar lembranças dolorosas, pois elas persistem profundamente no interior de células cerebrais

setembro de 2015
SHUTTERSTOCK

por Roni Jacobson

Apesar de abstratas, intangíveis e muitas vezes pouco consistentes, nossas memórias têm uma sólida base biológica. Segundo a neurociência clássica, elas se formam quando células cerebrais enviam às suas vizinhas sinais de comunicação química através das sinapses (espaços entre as células), ou para entroncamentos que as conectam. Toda vez que uma memória é ativada, a conexão é fortalecida. A noção de que sinapses armazenam memórias dominou a ciência por mais de um século, mas um novo estudo realizado por especialistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles pode derrubar essa interpretação ao sugerir que memórias talvez residam no interior de células do cérebro. Se for corroborado, esse trabalho pode ter implicações – para o bem e para o mal – no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático, condição marcada por memórias dolorosamente vívidas e intrusivas.

Há mais de uma década cientistas começaram a examinar a droga propranolol para o tratamento do distúrbio. Acreditava-se que ela impedisse a formação de memórias ao bloquear a produção de proteínas necessárias ao armazenamento de longo prazo. Infelizmente a pesquisa logo deparou com um problema: a não ser que fosse ministrado imediatamente após o evento traumático, o procedimento era totalmente ineficaz. Ultimamente, pesquisadores têm trabalhado em uma solução alternativa: evidências sugerem que, quando alguém ativa uma memória, a conexão não só é fortalecida como também se torna temporariamente suscetível a mudanças, um processo chamado reconsolidação da memória. Ministrar propranolol (acompanhado de terapia, e talvez estimulação elétrica e até outras drogas) durante essa “janela” pode permitir que cientistas bloqueiem a reconsolidação, apagando ou eliminando a sinapse no local.

A possibilidade de eliminar lembranças chamou a atenção de David Glanzman, neurobiólogo da Universidade da Califórnia que começou a estudar o processo em Aplysia, um molusco parecido com uma lesma-do-mar utilizado comumente em pesquisas neurocientíficas. Ele e sua equipe aplicaram leves choques elétricos nos animais, criando uma memória do evento expressada como novas sinapses no cérebro. Em seguida, transferiram neurônios do molusco para uma placa de Petri e ativaram quimicamente a lembrança dos choques, ministrando, em seguida, uma dose de propranolol.

De início, a droga pareceu confirmar pesquisas anteriores ao neutralizar a conexão sináptica, mas, quando as células foram expostas a um lembrete dos choques, a memória voltou com força total em 48 horas. “Ela foi completamente restabelecida; isso parece significar que a memória não estava armazenada na sinapse”, diz Glanzman. Os resultados foram divulgados recentemente na publicação científica eLife, de acesso aberto.

Se a memória não está localizada na sinapse, então onde está? Quando os neurocientistas investigaram mais de perto as células cerebrais, descobriram que mesmo quando a sinapse era apagada mudanças moleculares e químicas persistiam após o disparo inicial dentro da própria célula. O traço mnêmico, ou engram, podia ser preservado por essas alterações permanentes. Alternativamente, ele podia ser codificado em modificações no DNA da célula responsáveis pelo modo como genes específicos são expressos. Glanzman e outros favorecem esse raciocínio.

O neurocientista alemão Eric R. Kandel,  ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2000 por seu trabalho sobre memória e atualmente na Universidade Colúmbia, adverte que os resultados do estudo foram observados nas primeiras 48 horas após o tratamento, um período em que a consolidação ainda é sensível. Embora preliminares, os resultados sugerem que, para pessoas com estresse pós-traumático, simplesmente tomar certos medicamentos muito provavelmente não elimina memórias dolorosas – até porque, ainda que o fato em si fique esmaecido na lembrança, as emoções (ou afetos, como dizem os psicanalistas) ligadas à situação que causou sofrimento – bem como seus efeitos – permanecerão até que haja elaboração.

“Se tivessem me perguntado há dois anos se seria possível tratar o estresse pós-traumático com um bloqueio medicamentoso, eu teria dito sim, mas agora não penso mais assim”, admite Glanzman. Segundo ele, a constatação de que as memórias persistem profundamente no interior de células oferece novos caminhos para estudar e compreender transtornos ligados à memória, como a doença de Alzheimer.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de setembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1Xgizxu

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