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Os mortos não choram

janeiro de 2007
Ana Beatriz Teixeira Iumatti
Volver (112 min.), Espanha, 2006. Direção: Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz, Carmen Maura, Blanca Portillo
No mais recente filme de Pedro Almodóvar, Volver, os homens estão mortos ou ausentes. Personagens femininos, ao contrário, esbanjam vida.

E, como anuncia o título, voltam. Assim como vento que sopra na pequena aldeia espanhola onde se passa parte da trama, fazendo com que os moradores enlouqueçam. Mas é por meio das vivências femininas que retornam histórias de vida e tragédias se repetem. Dois elementos reincidem na história de Raimunda, personagem interpretada por Penélope Cruz. Primeiro, o abuso sexual outrora vivido por ela mesma em sua adolescência e depois a situação similar sofrida por sua filha adolescente. Conteúdos traumáticos reaparecem após permanecer adormecidos, embora atuantes, no psiquismo familiar.

A situação pode evocar palavras de Freud, escritas em 1920, no texto Além do princípio do prazer: "(...) a compulsão à repetição também rememora experiências do passado que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, em tempo algum, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos pulsionais que desde então foram reprimidos". Quando vivos, os homens de Volver são perigosos - como o pai da horda selvagem, descrita no mito proposto por Freud em Totem e tabu -, têm poderes plenos para o exercício da sexualidade e, sem limite ou interdição, terminam mortos pelas mulheres.

Ao falar sobre situações que se repetem Freud observa que muitos buscam justificativas em fatores externos, como se fossem perseguidos por um destino maligno ou possuídos por algum poder demoníaco. Mas observa: "O destino das pessoas é, na maior parte das vezes, arranjado por elas próprias".