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Os olhos tortos de Rembrandt

Análise de obras mostram a possibilidade do pintor possuir problemas na visão estéreo

março de 2015
Susana Martinez-Conde e Stephen L. Macknik
REMBRANDT HARMENSZOON VAN RIJN. AUTORRETRATO. 1660. ÓLEO SOBRE TELA. METROPOLITAN MUSEUM OF ART, NOVA YORK

Abra e feche rapidamente os olhos, um de cada vez, e você vai notar que o esquerdo e o direito têm perspectivas ligeiramente diferentes. Neurônios no córtex visual usam o deslocamento horizontal entre esses dois órgãos para produzir uma visão estereoscópica, um dos principais recursos para enxergarmos profundidade. Nossas retinas são fundamentalmente estruturas bidimensionais, por isso a percepção da terceira dimensão é uma ilusão, uma construção cerebral.

Em 2004, os neurocientistas Bevil R. Conway e Margaret S. Livingstone, então da Escola Médica de Harvard, mostraram que os olhos do pintor holandês do século 17 Rembrandt van Rijn estavam, muitas vezes, desalinhados nos autorretratos, de modo que um deles parecia encarar diretamente o observador, enquanto o outro olhava para o lado. Margaret e Conway se perguntavam se Rembrandt teria pintado a si mesmo com impressionante precisão: nesse caso, talvez fosse estrábico divergente. Eles analisaram aspectos do olhar do pintor em 36 autorretratos e descobriram que, se essas obras fossem fiéis à sua vida, Rembrandt, na verdade, teria tido algum problema na visão estéreo, ou seja, era incapaz de usar o deslocamento horizontal entre os olhos para ver em 3D. Basicamente, trata-se de uma dificuldade para enxergar profundidade com pistas estereoscópicas. Isso pode ter sido vantajoso para ele, já que é rotina entre estudantes de arte fechar um dos olhos para replicar o mundo tridimensional em uma superfície plana com maior precisão. A cegueira estéreo pode ajudar os artistas a transformar o mundo em duas dimensões.

Os resultados preliminares sugerem que estudantes de arte têm menor capacidade de visão estéreo do que os de outras áreas e que os olhos de artistas consagrados apresentam desalinhamento mais pronunciado em relação à população em geral. Essa peculiaridade pode não tornar ninguém um grande mestre (muitos artistas, aliás, têm a visão sadia, enquanto a maioria das pessoas com cegueira estéreo não exibem nenhum talento especial). Mas os primeiros esboços de indivíduos com essa característica podem ser mais precisos do que o de alunos com a visão comum, e essa característica pode ajudar a encorajá-los a perseverar na formação artística.

Leia o texto completo: "Percepções Distorcidas", que faz parte da edição de março de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/184InXR

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