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Palavras cáusticas

Mais que piada ou inocente jogo de palavras, o sarcasmo pode ser compreendido como um recurso para substituir a agressão física

junho de 2012
© DEEPGREEN/SHUTTERSTOCK
Não há uma única entonação de voz. Entretanto, existem alguns parâmetros, identificados por John Haiman, linguista do Macalester College de St. Paul, em Minnesota, e autor do livro Talk is cheap: sarcasm, alienation, and the evolution of language (Oxford, University Press; sem tradução em português), que servem para identificar o sarcasmo durante uma conversa. Dados como entonação, volume da voz, pausas, duração das palavras e ênfase dada a cada uma e, no caso de texto escrito, a pontuação oferecem pistas importantes.

Há alguns anos, Henry Cheang e Marc Pell, da Universidade McGill de Montreal, no Canadá, fizeram uma análise acústica e vocal de vozes gravadas durante discursos sinceros e sarcásticos. Eles constataram que nestes últimos se notam redução da velocidade do falar e presença de esquemas prosódicos peculiares (como o aumento de tempo para pronunciar algumas sílabas). Por exemplo, uma coisa é dizer “desculpa”, outra é pronunciar “descuuuulpa”, acentuando a letra “u”. Com a palavra “querida”, a extensão da letra “i” também é indicativa de algum exagero que pode beirar a falsidade.

Mas não são apenas o tom e o volume da voz que ajudam a identificar uma piada sarcástica. Segundo Haiman, que estudou o assunto a fundo, a expressão facial também pode ser reveladora. Muitas vezes a frase cortante é acompanhada por uma expressão de repulsa, um sinal primitivo de que as palavras ditas são falsas. A careta mostra que elas parecem ter “gosto ruim”. O mesmo vale para a expressão dos olhos e das sobrancelhas, que fazem movimentos típicos quando a pessoa usa o sarcasmo. Uma pesquisa da Universidade Politécnica da Califórnia demonstrou que quando alguém conta uma piada ou faz uma tirada com forte toque de ironia em geral evita olhar nos  olhos de sua “vítima”.