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Palpite, dúvida ou certeza?

Experimentos revelam como o grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente em nossas opiniões, apostas e decisões

julho de 2017
Da redação
SHUTTERSTOCK

É inegável que muitas de nossas ações se passam fora do alcance da consciência: se ajustamos a postura corporal durante uma conversa ou se nos apaixonamos por determinada pessoa, em geral não temos ideia – pelo menos não exatamente – de por que ou de como fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos explicações superficiais (“fico mais confortável nessa posição” ou “gosto do meu noivo, temos muito em comum”, por exemplo). Por trás dessas justificativas, porém, pode haver muitos mistérios. 

Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você conscientemente viu a luz se acender?”. Embora pareça fácil responder à pergunta, mais de um século de pesquisas mostrou que não é bem assim. O problema-chave aqui é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la de maneira independente do estado interno do cérebro, ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo. 

Um experimento comum no campo do estudo da consciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida relata quão confiante se sente assinalando um número – por exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que, quando o participante tem pouca percepção da direção do movimento dos pontos, sua confiança é baixa, mas, quando “vê” claramente o movimento, sua segurança é alta. 

Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter McLeod e Alan Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais objetiva da consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse método foi adaptado da economia, em que é usado para avaliar a crença a respeito do resultado provável de um evento. Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver. Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais certo você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse setor. Persaud e seus colegas usam esse tipo de aposta para revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, os participantes não declaram confiança na percepção de maneira direta. Em vez disso, primeiro tomam uma decisão com base naquilo que perceberam e então apostam uma quantia em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se mostra correta, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta seguro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três exemplos do processamento não consciente. 

Um deles foi feito com o paciente G. Y. Devido a um acidente de carro que danificou áreas no seu cérebro responsáveis pelo processamento visual, ele tem o que se costuma chamar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na qual uma barra colocada numa tela de computador está se movendo, embora ele negue ter a experiência visual – G. Y. insiste que está apenas chutando. 

O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em converter esse desempenho superior em dinheiro quando está apostando; coloca quantias altas em menos da metade de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo, G. Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas apostas parecem espelhar a percepção consciente que tem do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as apostas podem servir de meio para medir a consciência. 

As técnicas de apostas usadas por Persaud, McLeod e Cowey dependem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas e obter lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes a se tornar cientes de sua própria consciência – e, nesse processo, interferir no próprio fenômeno que se deseja medir –, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – e reveladora – de estudar a percepção e os processos de tomada de decisão. Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibilidades para ampliar a compreensão de como a consciência surge da experiência.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível em:

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