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Para detectar um mentiroso, mais vale ouvir do que ver

Aparentemente, nossos olhos se deixam enganar mais facilmente. Por isso, vale a pena prestar atenção principalmente no que uma pessoa diz, ficando alerta para possíveis contradições

junho de 2017
Da redação
SHUTTERSTOCK

Como podemos perceber se estamos diante de um mentiroso? Durante muito tempo, as pessoas acreditaram que podiam identificar um mentiroso por comportamentos ou sinais corporais – como coçar a cabeça com frequência; movimentar-se de forma agitada ou ficar com as faces coradas. No entanto, um grupo de pesquisadores coordenado pela psicóloga Bella M. DePaulo, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, garante que, em geral, as coisas não são tão simples. Há dez anos ela analisou resultados de 120 estudos sobre os sintomas físicos que acompanham mentiras – e concluiu que os estereótipos raramente são verdadeiros: mentirosos não escorregam nervosos na cadeira nem evitam o contato visual de seu interlocutor.

Segundo a pesquisadora e seu colega Charles F. Bond, da Universidade Cristã do Texas, para a maioria das pessoas é realmente muito difícil discernir se uma declaração é verdadeira ou falsa. Em um trabalho mais recente, os dois cientistas revisaram 206 estudos sobre a cota de acertos em julgamentos sobre credibilidade. No total, apenas 54 desses julgamentos sobre a veracidade ou não de uma declaração estavam corretos, um valor estatisticamente pouco significativo – que talvez pudesse ter sido atingido também por meio de pura adivinhação. Mas convém levar em conta que, na média, os participantes dos experimentos reconheceram mais frequentemente afirmações verdadeiras do que mentiras. No entanto, há estratégias com as quais as enganações podem ser descobertas com alguma margem de segurança.

Tomando por base os estudos levantados por Bond e DePaulo, pesquisadores da mesma equipe compararam diversos canais sensoriais. Ao analisar os resultados dos exames, eles chegaram à conclusão de que sinais acústicos ajudam mais que os visuais na hora de reconhecer engodos. Nos experimentos, os voluntários podiam diferenciar de forma mais nítida as mentiras quando ouviam a declaração duvidosa com atenção, em vez de observar o falante, à procura de sinais reveladores. Se as pessoas assistiam a um vídeo sem som, a cota de acertos eram apenas aqueles 50%, obtidos também por adivinhação. Mas se durante a exibição das imagens eram apresentadas as vozes correspondentes, a cota de acerto de seus julgamentos aumentava para 54%. Mais uma vez, nada assombroso, mas de qualquer forma havia uma alteração estatística. O que de fato surpreendeu os pesquisadores foi o resultado não ser pior quando somente se apresentou o som sem imagem. Ou seja: quem se concentra apenas no comportamento não verbal reduz suas chances de desmascarar um mentiroso.

Aparentemente, nossos olhos se deixam enganar mais facilmente. Por isso, vale a pena prestar atenção principalmente no que uma pessoa diz, ficando alerta, por exemplo, para possíveis contradições. Especialistas afirmam que os mentirosos contumazes são, em geral, pouco plausíveis e lógicos. Além disso, raramente admitem que tenham de corrigir sua descrição ou que não consigam se lembrar de algo – para “encobrir os brancos da memória”, eles simplesmente inventam informações. Se a pessoa ainda parece nervosa e fala em tom mais alto do que o de costume, então devemos ter cuidado: ela tem grandes possibilidades de estar mentindo. Os estudos avaliados por DePaulo e Bond revelaram também que vários participantes conseguiram reconhecer as declarações falsas de forma mais clara quando o mentiroso foi pego de surpresa e não teve tempo de planejar o que diria. Por isso, cobrar explicações imediatas pode desmascarar um provável mentiroso. 

Para o psicólogo Aldert Vrij, pesquisador da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, uma boa estratégia é fazer a pessoa da qual desconfiamos que esteja mentindo falar o máximo possível. Nesse momento, ela precisa pensar rapidamente e corre o risco de contradizer-se. E, quanto mais ela falar, mais difícil será para ela controlar tanto o conteúdo do que diz quanto o próprio comportamento. Portanto, pedir que repita trechos do que foi dito também costuma ser eficaz para detectar brechas nos discursos. “Essa técnica de interrogatório, muito conhecida de romances e filmes policiais, revela-se, de fato, sensata”, observa Vrij.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível em: 

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