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Para onde vão as memórias perdidas

Cientistas acreditam que traços de lembranças podem permanecer no núcleo celular, o que permitiria recuperação futura

agosto de 2015
SHUTTERSTOCK/ARTE DE JOÃO SIMÕES

Uma vez que uma memória é perdida, é para sempre? A maioria das pesquisas indica que sim. Mas um estudo publicado recentemente no eLife traz uma nova perspectiva: é possível que resíduos de lembranças permaneçam no núcleo celular, o que pode permitir recuperação futura ou pelo menos facilitar a formação de uma recordação associada.

A teoria atualmente aceita pela neurobiologia é que memórias de longo prazo subsistem nas sinapses, os espaços entre duas células neurais, onde há a transmissão do impulso de uma célula para outra. Lembranças duradouras dependem, assim, de uma forte rede dessas conexões neurais. O enfraquecimento ou desaparecimento de memórias é atribuído à deterioração das sinapses.

No novo estudo, cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles estudaram o sistema nervoso de lesmas-do-mar em um prato de cultura de células. Observaram que após alguns dias os neurônios formaram espontaneamente certa quantidade de sinapses. Então, os pesquisadores aplicaram o neurotransmissor serotonina nas células neurais, favorecendo a criação de mais conexões sinápticas – o mesmo processo pelo qual seres vivos geram memórias de longo prazo. Depois, inibiram uma enzima associada à formação de lembranças e, após 48 horas, verificaram os neurônios. Resultado: as sinapses haviam retornado ao número inicial – mas não com as mesmas conexões individuais de antes. Algumas ligações originais e outras novas foram reduzidas à medida inicial exata de células.

Os cientistas conduziram também um experimento semelhante com lesmas-do-mar vivas, em que descobriram que a memória de longo prazo pode ser totalmente apagada (um fato medido pela destruição das conexões sinápticas) e, depois, restaurada com apenas um pequeno estímulo, um lembrete – o que indica, novamente, que algumas informações são armazenadas no corpo do neurônio.

“Sinapses podem ser como os dedos de um pianista de concerto”, argumenta o neurologista David Glanzman, da Universidade de Califórnia, autor principal do estudo. Mesmo que Chopin não tivesse dedos, ainda saberia como tocar suas sonatas.

Outros especialistas da área são mais cautelosos na interpretação dos resultados. Ainda que os neurônios possam reter informações sobre quantas sinapses devem formar, ainda não está claro como as células poderiam saber onde localizá-las e administrar sua intensidade – componentes cruciais para o armazenamento de lembranças. No entanto, o que o trabalho sugere é que o processo de codificação de memórias não é rígido: as sinapses podem enfraquecer ou se fortificar à medida que a memória aumenta ou diminui.

Essa matéria foi publicada originalmente na edição de Agosto de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1ORuiNB

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