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Passeio fora do corpo

agosto de 2007
Divulgação
Henrik Ehrsson movimenta pino de plástico abaixo das câmeras, enquanto toca no ponto correspondente do peito do voluntário: a sensação é de estar sentado no lugar da câmera, observando diante de si um corpo alheio
(Agência Fapesp) – Com o uso de realidade virtual para misturar sinais sensoriais que chegam ao cérebro, cientistas europeus induziram voluntários a experiências extracorpóreas, sugerindo uma explicação científica para o fenômeno normalmente considerado produto de ilusão ou de ficção.

A visão de seus corpos transferidos para outro local – graças ao equipamento – associada à sensação de serem tocados simultaneamente fez com que voluntários sentissem que estavam se movendo fora de seu corpo físico, de acordo com dois artigos publicados na revista Science.

Uma desconexão entre os circuitos cerebrais que processam esse tipo de informação sensorial pode ser responsável por algumas das experiências extracorpóreas, segundo os autores.

“Estamos interessados nas razões pelas quais sentimos que cada ‘eu’ está dentro de nossos corpos, ou, em outras palavras, por que temos uma experiência intracorpórea”, disse o autor de um dos estudos, Henrik Ehrsson, da Universidade College London, na Inglaterra, e do Instituto Karolinska, na Suécia.
Tanto Ehrsson como a equipe liderada por Olaf Blanke, da Escola Politécnica Federal de Lausanne e do Hospital Universitário de Genebra, ambos na Suíça, utilizaram câmeras e óculos de realidade virtual para exibir aos voluntários imagens de seus próprios corpos a partir da perspectiva de alguém posicionado atrás deles. Ao mesmo tempo, os pesquisadores tocaram os corpos dos voluntários, tanto os reais como os virtuais.

Os voluntários do estudo de Ehrsson viram, por meio dos óculos especiais, imagens gravadas por câmeras. No trabalho de Blanke e equipe, o vídeo foi convertido em simulações computacionais semelhantes a holografias.

O primeiro grupo movimentou um pino de plástico logo abaixo das câmeras, enquanto os voluntários eram tocados no peito no ponto correspondente.
Questionários feitos em seguida indicaram que os voluntários sentiram que estavam sentados no local em que estavam as câmeras e observavam diante de si um manequim ou um corpo que pertenceria a outra pessoa.

“Esse experimento sugere que a perspectiva visual de primeira pessoa é criticamente importante para a experiência intracorpórea. Ou seja, sentimos que nosso ‘eu’ está localizado onde estão nossos olhos”, disse Ehrsson.
O cientista sueco também fez os voluntários olharem um martelo que era balançado em direção a um ponto abaixo da câmera, como se estivesse batendo em uma parte do corpo virtual fora do campo de visão.

Medições de condutividade da pele, que refletem respostas emocionais como o medo, indicaram que os voluntários sentiram que seu “eu” havia deixado o corpo físico e se movido para o corpo virtual.

Para os pesquisadores, casos que envolvem a sensação de sair do corpo e vê-lo a partir de uma perspectiva externa podem estar relacionados, em parte, com o uso de drogas, ataques epiléticos e outros tipos de distúrbios cerebrais.

Ao projetar a consciência de uma pessoa em um corpo virtual, as técnicas utilizadas nesses estudos poderiam, segundo os autores dos estudos, ser úteis para treinamento em delicadas tarefas de “teleoperação”, como a realização remota de cirurgias.

As conclusões das pesquisas também poderiam ajudar a eliminar o estigma imputado a pacientes de distúrbios neurológicos que têm essas experiências, freqüentemente atribuídas a uma imaginação ativa ou a algum tipo de fenômeno paranormal. De acordo com os pesquisadores, os estudos têm potencial de ajudar a resolver antigas questões sobre como o ser humano percebe seu próprio corpo.
Disfunções cerebrais

A equipe de Blanke utilizou uma instalação semelhante para criar experiências extracorpóreas. Nesse caso, as imagens em vídeo foram convertidas em simulações tridimensionais e holográficas.

Depois da experiência de realidade virtual, um pesquisador vendava os voluntários e os conduzia mais para trás. Quando era pedido que voltassem à posição inicial, eles demonstravam tendência a se dirigir ao local em que haviam visto seu corpo virtual.

Os dois estudos concluíram que o “conflito multissensorial” é o mecanismo-chave na base da experiência extracorpórea. “As disfunções do cérebro que interferem nos sinais de interpretação sensoriais podem estar na origem de certos casos clínicos de experiência extracorpórea. No entanto, não sabemos se todas essas experiências são provenientes das mesmas causas”, disse Ehrsson.

Além dos sinais sensoriais, de acordo com Blanke, a consciência do corpo poderia também implicar uma dimensão cognitiva: a capacidade de distinguir o próprio corpo de outros objetos.
Sustentando essa idéia, os autores relataram que, quando os voluntários viram uma coluna de tamanho humano, no lugar da imagem de um corpo humano, puderam voltar a seu local inicial, indicando que a ilusão de experiência extracorpórea não ocorria mais.

“A consciência do corpo parece requerer não apenas o processo ‘ascendente’ de correlacionar a informação sensorial, mas também o conhecimento ‘descendente’ do corpo humano”, disse Blanke.

Algumas experiências extracorpóreas que haviam escapado anteriormente a qualquer explicação científica poderiam estar relacionadas com uma perceção corporal distorcida, de acordo com Blanke. Segundo ele, os sistemas de realidade virtual talvez poderão trazer novas respostas no futuro.

“Tivemos décadas de pequisa intensa sobre a percepção visual, mas não se avançou muito sobre a percepção corporal. No entanto, isso poderia mudar, agora que a realidade virtual oferece um meio mais sistemático para manipular a percepção do corpo inteiro e para testar de uma nova forma as experiências extracorpóreas, assim como a consciência corporal”, disse o cientista suíço.