Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Pausa para pensar na morte

A maioria das pessoas foge do tema, mas poucos percebem que encarar a finitude ameniza a angústia e até nos torna mais conscientes de nossos limites e possibilidades

janeiro de 2014
Michael W. Wiederman
Shutterstock

Nos últimos anos, pesquisadores começaram a descobrir que a consciência da mortalidade afeta o comportamento de modo tão evidente quanto sutil e deflagra conflitos, como se nos puxasse para sentidos opostos. Alguns pesquisadores, no entanto, defendem que o confronto com a mortalidade é benéfico. Grande parte deles mostra que a consciência repentina da mortalidade (o diagnóstico de uma doença grave, por exemplo) sem que haja tempo para a absorção e elaboração dessa situação pode levar a comportamentos marcados por revolta, egoísmo e até crueldade.

Outras pesquisas, entretanto, revelam que a familiarização gradativa com a ideia de que vamos morrer – assim como todos aqueles que conhecemos – tende a ser benéfica e, em alguns casos, até transformadora. Ou seja: em grande parte, nossa reação depende das circunstâncias: se a finitude está muito presente como um fato iminente ou se apenas paira pouco além da consciência. Outro determinante essencial de como lidamos com o tema parece ser se nossos objetivos são mais ligados a referências materiais, afetivas ou espirituais.

De cara com ela

Para a maioria de nós, a experiência de quase morte (EQM) ou da morte de alguém próximo em geral nos leva a fazer um balanço da nossa própria vida e alguns ajustes. Isso certamente foi verdade para o meu pai, e é precisamente o efeito esperado por muitos terapeutas ao tentar ajudar pacientes a enfrentar a mortalidade e a tornar sua existência mais significativa. Normalmente, a mudança se dá a partir de valores e objetivos extrínsecos, como o sucesso material, em direção ao universo subjetivo, como questões que envolvem valores, resgates afetivos e espiritualidade.

Pesquisas validam a utilidade da abordagem. Em um estudo coordenado por Emily L. B. Lykins, da Universidade de Kentucky, a pesquisadora e seus colegas conversaram com funcionários de um centro médico em - Northridge, na Califórnia, duas a três semanas após um terremoto devastar a área ao redor, matando 57 e ferindo milhares, em 2006. Os voluntários foram convidados a classificar por grau de importância 16 objetivos: naquele momento e antes do terremoto. Os resultados indicaram uma mudança de prioridade, e as pessoas passaram a priorizar os objetivos intrínsecos. Além disso, os entrevistados que mais temeram a morte durante o terremoto também foram os mais propensos a indicar uma mudança de metas externas (trocar de carro ou guardar mais dinheiro, por exemplo) para internas (como cultivar relacionamentos íntimos, fazer trabalho criativo e se desenvolver como ser humano).

O efeito benéfico funciona também ao contrário. Pessoas que buscam objetivos subjetivos têm mais sucesso em se afastar da ansiedade associada à morte que os materialistas. Em 2009, os cientistas Alain van Hiel e Maarten Vansteenkiste, da Universidade de Ghent, na Bélgica, publicaram seu estudo com idosos (com idade média de 75 anos). Os participantes que relataram ter alcançado mais de suas metas intrínsecas eram menos ansiosos perante a morte e mais satisfeitos com a vida. Por outro lado, os que relataram maior realização de objetivos extrínsecos indicaram desespero em relação às perdas e menor aceitação da morte.

Você leu um trecho da matéria Para pensar na morte, da edição nº252 da revista Mente e Cérebro. Adquira já sua revista para saber mais.