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Pecados femininos

Obras da portuguesa Paula Rego expostas em São Paulo retratam medos e perversões do universo das mulheres

abril de 2011
Divulgação
Insinuação da sexualidade aparece na cena doméstica mostrada em A família (1988)
Simone de Beauvoir escreveu: “Ninguém nasce mulher, tornase”. De fato, várias correntes da psicologia sustentam que o psiquismo feminino é modelado por experiências subjetivas e atravessamentos culturais. Vivências corporais femininas como menstruação, gravidez, aborto e, em algumas culturas, mutilações genitais inspiraram boa parte das 130 obras da mostra Paula Rego, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. A seleção reúne produções de mais de 50 anos de carreira da artista portuguesa.


Figuras femininas encorpadas, de braços e pernas musculosos, protagonizam representações de perversões sexuais, violência, clandestinidade, episódios de circuncisão de meninas corroborados por mães e avós. “As pinturas de Paula são realizadas com base em sua própria perspectiva e de observações do que foi crescer numa cultura na qual as mulheres, não raro, eram subjugadas pela dominância masculina e tinham de encontrar suas próprias maneiras de afirmar-se e até mesmo de planejar vinganças”, diz o curador da exposição, Marco Livingstone. A artista de 76 anos nasceu em uma família tradicional lisboeta e entrou em contato com a vanguarda artística europeia na década de 1950, quando foi estudar arte na Inglaterra, país em que vive até hoje.
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Pintura da série Aborto (1998)
As telas estão divididas por períodos e ocupam sete salas da Pinacoteca. Na ala com as produções realizadas entre 1986 e 1995, há obras de impacto, como A família(1988), de grande ambiguidade sexual – uma menina insinua-se para um homem que aparenta ser seu pai, sob o testemunho de outra figura infantil.
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Pintura da série Aborto (1998)
Outras pinturas abordam temas políticos. Na série Aborto (1998), colegiais, mulheres modernas e outras pobres e humildes surgem em situações de fragilidade, sustentadas por posturas menos dignas, ainda mais incômodas pelo significado que encerram – uma crítica à criminalização do aborto em Portugal e à sociedade que permite que ele seja feito às escuras.