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Pensar sobre o pensamento

O treinamento metacognitivo, relacionado à mudança de crenças, pode amenizar transtornos de humor e até sintomas da esquizofrenia

outubro de 2014
Tori Rodriguez
Fototaras/Shutterstock

Crenças e opiniões moldam nossa vida de maneira surpreendente. O problema é que, muitas vezes, aquilo que pensamos pode dificultar a tomada de decisões saudáveis e trazer bastante sofrimento emocional e físico. Diversas descobertas recentes, porém, sugerem que o treinamento metacognitivo é capaz de ajudar a amenizar transtornos de ansiedade e até reduzir sintomas psicóticos.

A metacognição é a capacidade de conhecer o próprio ato de conhecer, ou seja, de avaliar aquilo que acreditamos saber, pensando sobre aquilo que pensamos. A pedagogia apresenta uma proposta relativamente simples: levar o aluno a refletir e discutir sobre como faz as coisas, sobre como aprende. Mas o conceito tem mesmo origens na psicologia, mais especificamente nas áreas que pesquisam como se dá a resolução de problemas. A proposta é acompanhar, avaliar e modificar as próprias estratégias de encontrar as respostas – e ser capaz de descrever esse processo.

A metacognição funciona como um pano de fundo daquilo que acreditamos e, não raro, toma a forma de juízo de valor. Pensamos, por exemplo: “É prejudicial analisar demasiadamente cada coisa que acontece”. Há verdade nisso? Talvez. Há casos em que sim, mas, se por causa dessa forma de pensar a pessoa evitar constantemente a reflexão a respeito dos acontecimentos da própria vida, as consequências podem ser ainda piores.

O curioso é que uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Universidade Macquarie, na Austrália, aponta que esse tipo de crença pode desempenhar um papel importante no transtorno obsessivo-compulsivo, na depressão e no transtorno de ansiedade generalizada (TAG), entre outros problemas psíquicos.

Há casos em que aquilo em que acreditamos pode pesar muito e determinar a forma como entendemos e sentimos uma situação, por exemplo, focando prioritariamente os aspectos negativos de um evento. “Essa concepção, chamada de avaliação cognitiva, é comumente abordada na psicoterapia comportamental, mas a metacognição não, talvez em detrimento do paciente”, diz a psicóloga Jennifer L. Hudson, coautora do estudo publicado no ano passado na Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology.

Os resultados mostraram que, entre 83 crianças, as que apresentavam transtorno de ansiedade alimentavam mais ideias negativas (“a inquietação pode me enlouquecer”, por exemplo) e positivas (“a preocupação me ajuda a me sentir melhor”) do que as saudáveis. “Acreditamos que essas crenças podem ter relação causal com os transtornos de ansiedade, ou pelo menos ajudam a mantê-los”, diz Jennifer Hudson. 

Ela acredita que a terapia metacognitiva possa abordar com sucesso transtornos de humor e ansiedade. A técnica desenvolvida em 2008 pelo psicólogo clínico Adrian Wells, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, ensina os pacientes a reconhecer e reformular pensamentos – denominados metacognitivos – que reforçam mecanismos ineficientes de enfrentamento, como a ideia de que “meus problemas não têm solução”.

Trata-se, na verdade, de algo parecido com as intervenções da terapia cognitivo-comportamental (TCC), que têm como alvo mudar ideias mal-adaptativas, como a de que “o mundo não é seguro”. A técnica ajuda também os pacientes a se tornar mais flexíveis em relação aos próprios pontos de vista em vez de se manterem em padrões de pensamento repetitivos, por exemplo. 

Um pequeno estudo publicado na Japanese Journal of Personality investigou se a terapia metacognitiva poderia reduzir a ruminação depressiva e refutar as crenças negativas sobre a maneira de ver a vida, como “pensar repetidamente sobre algo ajuda a enxergar melhor as situações”. Os pesquisadores trabalharam com 23 voluntários, todos alunos de graduação que marcaram alta pontuação em testes que mediam essa característica. Entre os participantes, 12 foram escolhidos aleatoriamente e passaram por intervenções durante duas semanas. Os outros 11, integrantes do grupo de controle, não receberam tratamento. A técnica ajudou a reduzir a tendência de ruminar pensamentos negativos. 

Outro estudo publicado no Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry aponta que a terapia metacognitiva ajuda a amenizar sintomas psicóticos. Os pesquisadores mencionam resultados mistos de estudos da TCC no tratamento desse tipo de transtorno mental. Eles submeteram dez pacientes com distúrbios do espectro da esquizofrenia a até 12 sessões de terapia metacognitiva durante nove meses. No final, cinco apresentaram redução de pelo menos 25% dos sintomas. Destes, quatro mantiveram os ganhos três meses depois.

Embora sejam necessárias mais pesquisas, esses estudos já indicam que o tratamento deve ir além da abordagem de ideias específicas do paciente para esclarecer as crenças subjacentes que podem reforçá-las. “Fatores metacognitivos são cruciais para determinar os estilos de pensamento que oferecem sustentação a distúrbios psíquicos”, diz o psicólogo Robin Bailey, doutorando na Universidade de Manchester e autor de um estudo recente sobre como crenças se relacionam positivamente com a ansiedade saudável. 

Saiba mais em A ciência que lê pensamentos, na Mente e Cérebro no 236. 

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