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Pintinhos e humanos pensam os números da mesma forma

Assim como as crianças, filhotes de galinha parecem ter preferência inata por algarismos menores à esquerda e maiores à direita

maio de 2017
Simon Makin
SHUTTERSTOCK

Pense em um número. Agora imagine um maior. Tente visualizar os dois na sua frente. Se você enxerga o menor do lado esquerdo, apenas confirma um dado encontrado frequentemente: tendemos a posicionar números no espaço da esquerda para a direita. Cada vez mais evidências, incluindo pesquisas com bebês lactentes pré-verbais, sugerem que nascemos com essa tendência que pode ser facilmente influenciada pela cultura e alterada. O curioso é que um estudo publicado há alguns meses pela Science, por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Trento, na Itália, mostra que bebês de uma espécie completamente diferente também preferem colocar os algarismos maiores nessa ordem.

Os cientistas treinaram pintinhos de três dias de vida para andar em torno de um painel em busca de alimento. Num primeiro momento, alguns filhotes aprenderam a encontrar comida atrás de uma divisão em que havia cinco pontos desenhados. Em seguida, os cientistas, coordenados pela psicóloga cognitiva Rosa Rugani, substituíram o painel por outros dois. Quando essas novas separações mostravam duas marcações cada uma, os bichos caminhavam inicialmente para a marca da esquerda em 70% das vezes. Quando os painéis exibiam oito, os pintinhos tendiam a escolher o número da direita, como se tivessem certa preferência pela disposição numérica. 

Os pesquisadores repetiram então o experimento com outros filhotes que foram treinados com divisões exibindo 20 pontos e testados com marcação de oito ou 32. Surpreendentemente, em ambos os ensaios, os animais viraram à esquerda para os números pequenos e à direita para os grandes. Os cientistas escolheram como menor o oito em um contexto e maior no outro para mostrar que o efeito depende de quantidades relativas, e não de qualquer preferência absoluta por algum número. 

Os resultados confirmam fortemente a ideia de que essa predisposição é inata. A pesquisa indica, porém, que essa preferência pode ser facilmente modificada pela experiência; por isso, é bem provável que substituí-la não represente muita dificuldade para cérebros jovens numa cultura que escreve nesse sentido. Falantes de árabe, por exemplo, mostram tendência espacial inversa. Outros povos que escrevem da direita para a esquerda e os dígitos na outra direção, como em hebraico, não mostram nenhuma predileção particular.

Os autores do estudo sugerem que esses resultados estão relacionados com o fato de que cérebros não são simétricos. O hemisfério direito domina o processamento visuoespacial, levando a uma preferência para o lado esquerdo do espaço para comandar a atenção – o que talvez explique por que tendemos a pensar nos “primeiros” números nessa direção enquanto contamos. O esquema espacial pode surgir também de um mapa físico dos algarismos no cérebro, algo encontrado em humanos no córtex parietal posterior direito, mas ainda não observado em animais.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de abril da Mente e Cérebro, disponível em: 

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