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Podemos aprender a esquecer?

Neurocientistas americanos tentam apagar recordações desagradáveis; porém, ainda que esse processo seja bem-sucedido, provavelmente o mero esquecimento do fato não será suficiente para evitar o aparecimento de  sintomas físicos e mentais 

janeiro de 2017
SHUTTERSTOCK

Depois de estender a mão num reflexo para segurar uma panela quente que cai do fogão, você pode ser capaz de puxá-la de volta no último instante para não se queimar. Tudo isso em frações de segundo. Isso ocorre porque o controle executivo do cérebro pode intervir para interromper uma cadeia de comandos automáticos. Várias novas evidências sugerem que algo parecido acontece com o reflexo da recordação: o sistema cerebral é capaz de parar a recuperação espontânea de memórias dolorosas.

Primeiro é preciso considerar que as memórias fazem parte de uma espécie de teia de informações conectadas. Por isso, uma lembrança pode agir como gatilho de outra, trazendo-a à tona sem esforço consciente. “Quando você recorda algo, a resposta automática da mente é lhe fazer um favor, tentando recuperar o que estiver associado a isso, mas às vezes somos lembrados de coisas sobre as quais preferiríamos não pensar”, diz o neurocientista Michael Anderson, pesquisador da Universidade de Cambridge.

Estudos prévios sugerem que as áreas frontais do cérebro reduzem a atividade do hipocampo, uma estrutura crucial para a memória, e assim evitam a recuperação de lembranças. Para entender melhor, Anderson e seus colegas investigaram o que acontece depois que o hipocampo é suprimido. Eles pediram a 381 universitários para aprender pares de palavras pouco relacionadas. Depois, mostrou-se a eles uma das palavras e pediu-se que lembrassem da outra – ou que fizessem o contrário e, intencionalmente, não pensassem na outra. Às vezes, entre as tarefas, mostravam a eles imagens incomuns, como um pavão parado num estacionamento.

Em artigo publicado no periódico científico Nature Communications, os cientistas afirmaram que a capacidade dos participantes de lembrar de pavões e outras imagens pouco convencionais foi cerca de 40% menor nos testes em que foram instruídos a suprimir memórias de palavras, antes ou depois de verem as imagens, em comparação com os testes em que foram solicitados a recordar as palavras. O achado traz mais evidências de que há um mecanismo de controle de memória, e sugere que tentar esquecer ativamente uma lembrança particular pode afetar negativamente a memória geral. O fenômeno é chamado de “sombra amnésica”, porque parece bloquear a recordação de eventos não associados que ocorrem por volta do momento em que a atividade do hipocampo é reduzida. 

“Os resultados talvez expliquem por que há vários registros de pessoas que viveram traumas (e depois tentaram esquecê-los) e têm memória fraca de fatos cotidianos”, observa Anderson. Ele e a colega Ana Catarino agora desenvolvem um novo experimento: monitoram em tempo real a atividade cerebral de pessoas que querem esquecer algo específico e informam a eles o quanto da atividade hipocampal está suprimida. Os pesquisadores acreditam que isso possa ajudar a aperfeiçoar o esquecimento seletivo, uma aptidão que poderia minorar a dor de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático.  O que não foi considerado é que a experiência deixa uma marca emocional que não se restringe à lembrança em si e os resquícios traumáticos podem aparecer em forma de sintomas e quadros graves de doença mental. Mais útil do que simplesmente esquecer, parece fundamental recorrer a processos psicoterapêuticos que permitam o reconhecimento da dor e a elaboração da vivência dolorosa. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de janeiro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2ifJfyD 

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