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Poética e delírio de Bispo do Rosário

Espetáculo apresenta no Rio arte e loucura de artista esquizofrênico

maio de 2007
Graziela Costa Pinto
DIVULGAÇÃO
Depois de três anos de sucesso na Alemanha, montagem chega ao Rio com direção premiada
Arthur Bispo do Rosário acreditava ter recebido uma missão divina: reconstruir o mundo. E foi o que fez incansavelmente durante os 50 anos em que permaneceu internado em uma instituição psiquiátrica. Ordenou objetos, catalogou nomes, notícias, nomenclaturas e datas, bordou traços e os mais variados símbolos. Preencheu tudo o que pôde, inscrevendo signos complexos nos mais prosaicos suportes. A dinâmica delirante enlaçou a veia artística, e a obra do paciente esquizofrênico, descendente de escravos, tornou-se referencial na arte contemporânea das últimas décadas – ainda que o artista nunca tenha deixado a Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde esteve internado até sua morte, aos 78 anos.

Foram quase mil obras produzidas entre estandartes, fardões, barcos de madeira e tantas outras. Um magnífico manto bordado é seu trabalho de maior fôlego. Como diz Jorge Anthonio e Silva, em seu livro Arte e loucura: Arthur Bispo do Rosário, “uma sorte de patchwork de sentidos em que foram impressos todos os ícones da criação e as expectativas do devir”. Com ele, pretendia apresentar-se a Deus no dia do juízo final, como representante dos homens.

A trajetória de Bispo é ímpar, plena de interpretações e enigmas. Como alguém apartado da sociedade e da cultura é capaz de produzir uma obra de vanguarda, afinada com seu tempo e alinhada à de artistas como Marcel Duchamp, que provavelmente nunca conheceu? O ator e produtor carioca Alex Mello dá voz ao artista esquizofrênico no monólogo Andanças: vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, expondo um universo povoado de devoção e misticismo. Assim, leva os espectadores a refletir sobre processo criativo, afrodescendência, exclusão, fé, generosidade e solidão por meio da palavra empenhada e do corpo paramentado, multicolorido e memorialista.

Apresentada com sucesso durante três anos na Alemanha, a montagem chega ao Rio com direção da premiada Paula Feitosa e narração em off dos atores Milton Gonçalves e Zezé Motta sobre passagens emblemáticas da vida de Bispo. Em destaque, uma reprodução do manto, feita na própria Colônia Juliano Moreira e a instalação cênica Via Crucis, da artista plástica Fátima Chaves. A trilha sonora tem ritmos folclóricos brasileiros e sons de unidades psiquiátricas. Às quinta-feiras, após o espetáculo, há debates entre a platéia e convidados da área da saúde e artistas sobre a vida e a obra de Bispo do Rosário.

Andanças: vida e obra de Arthur Bispo do Rosário.
De quinta a domingo, às 19 h.
Até 17 de junho, com possibilidade de prorrogação.
Centro Cultural da Justiça Federal. Av. Rio Branco, 241, Rio de Janeiro, RJ. Tel.: (21) 3212-2565.
Ingressos: R$ 20,00.