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Por que algumas pessoas são mais sensíveis ao álcool

Aqueles que ficam enjoados com facilidade quando bebem têm menos probabilidade de criar dependência

abril de 2015
Andreas Heinz
SHUTTERSTOCK

Por muito tempo, alcoólicos foram vistos como pessoas autoindulgentes sem força de vontade. Embora a decisão de começar a beber realmente seja algo bastante pessoal, características de células do cérebro também podem influenciar a compulsão pela bebida. Além disso, uma vez que alguém se torna dependente, só força de vontade costuma ser insuficiente para romper essa condição – em muitos casos, é necessária a prescrição de drogas capazes de reverter a química do cérebro alterada pelo álcool.

A sensibilidade aos efeitos do álcool sobre os neurônios influi de maneira significativa no risco de a pessoa ser dependente. Segundo o psiquiatra Marc A. Schuckit, professor da Universidade da Califórnia em San Diego e diretor do Programa de Tratamento de Álcool e Drogas do Sistema de Saúde de San Diego, uma das melhores proteções contra o alcoolismo é a náusea. Aqueles que ficam enjoados com facilidade quando bebem têm menos probabilidade de ingerir álcool em quantidade e com frequência suficientes para criar dependência. Os mais resistentes são os que mais correm risco. Substâncias mensageiras inibitórias e excitantes no cérebro ficam desequilibradas em resposta a doses excessivas de álcool. As pessoas que conseguem beber mais têm maior risco de um desequilíbrio permanente.

A química do cérebro tem sido estudada em macacos resos que cresceram sem mãe, alguns no laboratório e outros na natureza. O psicólogo americano James Dee Higley, pesquisador do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo, descobriu que esses animais reagiam menos a bebidas de alto teor alcoólico do que outros primatas de sua espécie. Da mesma forma, os macacos sem mãe eram menos sensíveis também a outras substâncias que, assim como o álcool, aumentam o impacto do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico), que inibe sinais entre neurônios para que as células não fiquem excitadas demais.

Como resultado dessa sensibilidade reduzida, os macacos criados em isolamento podiam ingerir uma quantidade notavelmente grande de álcool – e procuravam fazer isso sempre que os pesquisadores permitiam o livre acesso à droga. Estudos em humanos revelaram mudanças semelhantes no cérebro das pessoas.

A neuroquímica alterada resultante do experimento é apenas um dos fatores que contribuem para diferenças individuais de suscetibilidade. Os genes também têm seu papel. Schuckit defende que até metade dos fatores causais para sensibilidade reduzida ao álcool é herdada. Num estudo de pequena escala que rastreou pessoas durante 15 anos, o grupo de pesquisa de Schuckit descobriu que uma variação no gene que codifica uma parte do receptor GABA pode estar relacionada à baixa sensibilidade ao álcool.

Embora a alta tolerância decorrente de uma química ajustada do cérebro ou da genética possa parecer um traço protetor, em última instância é desfavorável. Se o indivíduo consumir grandes quantidades de álcool de maneira regular, seu cérebro aos poucos vai se acostumar, praticamente garantindo que se torne adicto.

 

Leia o texto completo: "Quando o álcool modifica o cérebro", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:http://bit.ly/1FHaxa8

 

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