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Por que esquecemos de quando éramos bebês

Nessa fase o cérebro prioriza a aprendizagem em vez da formação e consolidação de recordações duradouras

setembro de 2014
Bikeriderlondon/Shutterstock

Assim que nascemos, começamos a descobrir as coisas. Aprendemos a pedir refeições e reclamar por fraldas limpas. E, entre um cochilo e outro, absorvemos um complexo sistema de linguagem. No entanto, lembramos pouco desses anos tão intensos. Agora, um estudo aponta que o mesmo processo que permite que os bebês aprendam rapidamente também pode afetar as ligações neurais que codificam certos tipos de recordações, de acordo com um artigo recente publicado na Science.

O neurobiólogo Paul W. Frankland e seus colegas do Hospital for Sick Children, em Toronto, suspeitavam que o crescimento acelerado dos neurônios no cérebro infantil pudesse interferir na formação de memórias. Para testar a hipótese, eles aumentaram a produção de células neurais em ratos adultos logo depois de aprenderem algo. Ao contrário do que acontece com os jovens, nos mais maduros os neurônios crescem lentamente. O uso de medicamentos, como antidepressivos, ou a prática de atividade física, porém, acelera esse processo.

À medida que os camundongos adultos se exercitavam, depois de aprenderem que determinada gaiola disparava um leve choque elétrico em suas patas, a recordação do incômodo diminuía. Depois, a equipe se concentrou no cérebro dos filhotes, que apresenta naturalmente crescimento neural acelerado. Esses animais raramente se lembravam da carga elétrica por mais de um dia. Quando os pesquisadores usaram uma droga para retardar a formação de células cerebrais, porém, os camundongos mais jovens mantiveram essa lembrança por uma semana. 

Os resultados sugerem que novos neurônios rompem as conexões que constroem recordações. Em crianças de até aproximadamente três anos, o disparo no crescimento neural que permite aprender sobre o mundo impede que lembranças de eventos isolados se fixem. É verdade que os pequenos são capazes de formar memórias (seu filho de 18 meses pode se lembrar do cão que viu há poucos dias), mas a menos que essa recordação seja reforçada, desaparecerá à medida que novos neurônios se desenvolvem. Depois dos três anos, em média, o crescimento neural diminui e a imagem do cachorro pode se fixar por toda a vida.

Para entender melhor como funciona a memória na infância, confira a matéria Do que as crianças se lembram, da Mente e Cérebro n. 260, na Loja Segmento.

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