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Por uma nova política de relacionamentos

Passando por Hobbes, Freud, Lacan e outros pensadores, o filósofo Vladimir Safatle desenvolve uma contribuição original – é possível pensar uma teoria “negativa” do reconhecimento como direção fundamental para uma nova forma de política

dezembro de 2015
Christian Ingo Lenz Dunker
SHUTTERSTOCK

O novo livro de Vladimir Safatle interessa aos que se interessam pela renovação das práticas clínicas, sobretudo psicanalíticas, nestes tempos de turbulência política. Depois deste livro não é mais possível acomodar-se ao juízo preguiçoso de que a psicanálise é uma teoria individualista, que reproduz ideologicamente as contradições sociais que a criaram, ou de que ela será para sempre uma prática insensível ao sofrimento coletivo. É certo que isso já havia sido desmentido por Ernesto Laclau, na Argentina, por Slavoj Zizek e a escola eslovena, no universo anglo-saxônico, por autores como Monique David-Ménard ou Michel Plon, na França, ou Philippe van Haute, na Holanda.

O ponto de partida do livro é certo entendimento do campo político que está chegando a um ponto de exaustão, a saber, a nossa confiança de que a transformação social possui um caminho já delimitado por nossos esquemas de representação que, gradualmente, transferem decisões e responsabilidades para meios como partidos, instituições, movimentos sociais e, ao final, o próprio Estado. Esse sistema conhecido como democracia parlamentar representativa tem um pressuposto que é o inimigo de fundo desse trabalho: nossa confiança no indivíduo como categoria última para pensar o político. Daí que Safatle comece o livro por uma espécie de arqueologia de nossos mitos políticos, derivados de Hobbes, e sua ideia de que o campo político nasce do medo, sobretudo do medo de ter de enfrentar sozinho outros mais fortes ou mais organizados. Ou seja, quando nos reconhecemos como cada vez mais individualistas, a partir do século 17, surge este mito fundador da política moderna que é Leviatã, esse soberano Estado para quem transferimos o poder e o monopólio da violência. O mito dos lobos egoístas em estado de guerra de todos contra todos nos informa também que fazer política é construir corpos, e construir corpos é determinar qual será seu afeto dominante, qual será sua hierarquia política de afetos. Vivemos tempo demais nessa tensão irreconhecida entre um sistema de representação desencarnado e seus ocupantes impuros. Ainda não percebemos com clareza as implicações que esse sistema traz consigo, entre elas a de que fazer política não é apenas reivindicar mudanças jurídicas ou fazer aplicar a lei no espaço público com sua geografia predeterminada de instituições e processos. A metapolítica hobbesiana nos levará a troca que Freud teria aclarado em Totem e Tabu: a troca covarde entre o desejo transgressivo e a segurança narcísica.

Contra essa equação hobbesiana, Safatle vai mobilizar um outro Freud, o Freud de Moisés e a religião monoteísta. Assim ele nos mostra o caráter contingente da equação que liga medo e esperança, como fonte e origem de nossa servidão voluntária. E com Lacan argumentará que há uma cura para o medo, que avança como nosso imperativo moral indiscutido na política, particularmente na política brasileira. Essa cura reside em passar do medo à angústia e da angústia ao desamparo. A experiência da radical e infinita falta de ajuda (Hilflosigkeit) não nos torna inermes, mas é capaz de rearticular nossa relação com nosso corpo e daí com a política. O medo do corpo que cai, que decai, que envelhece, que pode ser satirizado impiedosamente, que não se conforma nas imagens previstas de gênero é também o corpo que trabalha em certo registro de tempo, o tempo finito. Afinal, era esta a grande ameaça hobbesiana: a morte solitária e violenta. Por meio de uma genealogia do lugar do corpo e dos afetos no mundo do trabalho e da mercantilização das imagens corporais, Safatle desenvolve a noção de forma de vida (Lebensform) com a qual também trabalhei em meu último livro.

Para avançar nessa política do desamparo, Safatle leva adiante a plataforma teórica de seu livro anterior (Grande Hotel Abismo, Martins Fontes, 2013), ou seja, uma reconstrução da teoria do reconhecimento. O movimento que encontramos aqui é de grande interesse aos psicanalistas, pois mostra como a psicanálise contém, necessariamente, uma teoria do reconhecimento (por exemplo, a teoria da sexualidade, a teoria do narcisismo, a teoria do desejo). É como parte de uma teoria do reconhecimento que devemos entender o desejo humano como parte da história dos desejos desejados e como desejo do desejo do Outro. E como correlato dessa teoria que podemos retirar as teses de Lacan, de que a relação sexual não existe e de que Há Um, da sua atual miséria metafísica. Mas aqui se trata de opor Lacan e Winnicott no interior desse que é um dos grandes recuperadores da teoria do reconhecimento no quadro da Escola de Frankfurt, que é Axel Honneth. Mas para isso Safatle desenvolve uma contribuição original, que talvez corresponda ao núcleo do livro: a ideia de uma experiência de reconhecimento que ultrapassa o plano do predicativo, em outras palavras, reconhecer o outro como sujeito, reconhecer o desejo, reconhecer a fantasia que nos reconhece como objeto, não significa nos alienarmos nos traços que o Outro nos propõe. É possível pensar uma teoria “negativa” do reconhecimento, uma teoria sobre as circunstâncias nas quais o reconhecimento fracassa ou se mostra impossível, como uma direção fundamental para uma nova forma de política. Uma política que compreenda demandas, que abarque políticas de identidade, que leve em conta modalidades de gozo e a diversidade cultural de discurso sem, contudo, ser uma política de indivíduos, condenados aos seus particulares, presos em si-mesmos. O papel da indiferença, como categoria psicanalítica, se mostrará aqui inusitado.

O que temos ao final e ao cabo é a proposta de uma espécie de antídoto contra o empobrecimento de nossa imaginação política, de nosso cansaço com o indivíduo, de nosso desespero com as políticas da finitude e do bom senso, que nos consagram apenas à reprodução da biopolítica até aqui vigente. Quem ler verá.





Esta matéria foi publicada originalmente na edição de novembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1Hug1BN

 

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