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Praticando a imperfeição

Se a autocrítica exagerada impede as pessoas de progredir e mudar, errar de propósito pode ser um caminho para amenizar o perfeccionismo

agosto de 2016
DOREMI/SHUTTERSTOCK
O perfeccionismo não é um diagnóstico, e é pouco provável que uma pesoa com esse traço exacerbado procure ajuda por esse motivo – em parte porque os pensamentos e os hábitos são tão arraigados que se torna difícil para o próprio indivíduo reconhecer o problema. E mesmo quando o enxerga, reluta em mudar. O que leva essa pessoa a procurar ajuda, em geral, são as dificuldades de relacionamento, indiretamente causadas pela inflexibilidade.

Uma vez iniciado o processo, é importante que a pessoa reconheça como o ideal de perfeição afeta – e prejudica – sua vida. Será que tem dificuldade em tomar decisões por medo de repercussões catastróficas se fizer a escolha errada? É doloroso delegar tarefas no trabalho ou dividir os afazeres em casa e por isso ela se sobrecarrega? Por que não confiar que as coisas serão benfeitas pelos outros? Psicólogos cognitivos sugerem a manutenção de um diário de incidentes que provocam os sentimentos. Já os psicanalistas trabalham com associação livre durante as sessões e interpretação de sonhos, ampliando e desdobrando a queixa inicial, o que muitas vezes produz resultados inesperados e transformadores.

Ainda que por caminhos diferentes, nos dois casos a proposta é rever a ideia de que erros estão associados a desastres incontornáveis. "Em geral, perfeccionistas estão convencidos de que ruminar excessivamente sobre os erros é necessário apra aprender com eles. Mas, na verdade, a autocrítica exagerada impede as pessoas de mudar; uma coisa é aprender com os enganos, mas a autoflagelação é contra-producente", afirma a psicóloga cognitiva Roz Shafran. Ela costuma propor a seus pacientes que pratiquem a imperfeição, permitindo-se desafiar padrões para saber se o resultado será realmente tão ruim quanto eles imaginam. Roz os encoraja a errar deliberadamente: "esquecer" de comprar algo em sua lista de compras. No caso de universitários, ela pede que escrevam dois ensaios: no primeiro é necessário trabalhar tão duro quanto normalmente fariam; no segundo, devem obrigatoriamente colocar menos esforço. Depois, Roz entrega os textos para que um professor universitário faça uma classificação informal. Geralmente, os alunos descobrem que o trabalho escrito sem preocupação tem qualidade muito similar à do que foi feito com esforço excessivo. 

Os recursos preliminares sugerem que o método pode amenizar características perfeccionistas. Estudos ainda mais recentes desenvolvidos por Tracey Wade, da Universidade de Flinders, na Austrália, Roz Shafran e outros pesquisadores revelaram que, na maioria dos casos, em até oito semanas após o início do tratamento ocorre redução de sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e bulimia, além de diminuição da imagem negativa de adolescentes em relação ao próprio corpo. No entanto, o recurso terapêutico não diminui o anseio de buscar a excelência. "Felizmente, parece que somos capazes de lidar com a parte ruim sem reduzir o lado bom do perfeccionismo", afirma Tracey.

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