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Primeiro sentimos, depois julgamos

Tomografias cerebrais sugerem que nossas avaliações se baseiam mais em intuições e emoções do que em processos racionais

fevereiro de 2013
Zayats-and-zayats/Shutterstock
por Jorge Moll e Ricardo de Oliveira-Souza

De que maneira os sentimentos afetam nosso julgamento sobre o que é moral? Um estudo publicado na Nature de abril de 2007 apresenta uma nova e importante concepção sobre a relação entre raciocínio moral e emoção. Os pesquisadores Michael Koenigs, pós-doutorando do Instituto Nacional de Transtornos Neurológicos e AVC, Liane Young, aluna de pós-graduação em psicologia cognitiva da Universidade Harvard e seus colegas descobriram que uma lesão no córtex pré-frontal ventromedial (CPFVM, uma região do cérebro localizada acima das órbitas dos olhos) aumenta a preferência por escolhas “utilitárias” em situações de dilema moral. Nesses casos, os julgamentos favorecem o bem-estar agregado em detrimento do bem-estar de menor número de indivíduos. O estudo coloca lenha na fogueira de um já acalorado debate sobre os malabarismos que fazemos com fatos e emoção para tomarmos decisões morais.

Koenigs e Liane aplicaram um teste sobre tomada de decisão moral em três grupos: um deles formado por seis pacientes com lesão bilateral de CPFVM; outro constituído por pessoas com lesões em outras regiões do cérebro, e um terceiro grupo de -indivíduos controle neurologicamente saudáveis. As pessoas submetidas ao teste enfrentaram cenários de tomada de decisão em quatro classes. Uma delas continha cenários morais “pessoais de alto conflito” (moralmente ambíguas) e emocionalmente incômodas; exigia que a pessoa tomasse a decisão de empurrar ou não um estranho, obeso, em direção aos trilhos de um trem descontrolado (o que, consequentemente, mataria essa pessoa) para salvar a vida de cinco trabalhadores adiante na linha. 

Uma segunda classe continha cenários de “baixo conflito” (sem ambiguidade moral), mas altamente pessoais, tais como se seria moral que um homem contratasse alguém para estuprar a esposa para que, depois, pudesse consolá-la e reconquistar seu amor. Uma terceira classe oferece situações moralmente ambíguas, mas relativamente impes-soais, como se seria certo mentir para um segurança e “tomar emprestada” uma lancha veloz para avisar os turistas sobre uma tempestade mortal iminente. Uma quarta classe consistiu em avaliar situações ambíguas, mas amorais, como tomar um trem em vez de ônibus para chegar pontualmente a algum lugar.

Nas situações bem-definidas de baixo conflito pessoal, os pacientes com lesão no córtex pré-frontal ventromedial e os indivíduos-controle tiveram desempenhos semelhantes, respondendo unanimemente de forma negativa a exemplos semelhantes. Mas, ao ponderarem sobre as situações emocionalmente mais carregadas de ambiguidade, os pacientes com lesão de CPFVM exibiram uma probabilidade muito maior que os demais de endossar decisões utilitárias que levariam a um maior bem-estar agregado. Eles se mostraram muito mais dispostos que os demais a, por exemplo, empurrar um passageiro circunstante na frente do trem para salvar um grupo de trabalhadores no caminho adiante.

Por que as pessoas com lesão no CPFVM deveriam exibir maior preferência por escolhas utilitárias? É tentador atribuir esta preferência a um embotamento emocional geral – um traço habitualmente encontrado nos pacientes com lesão pré-frontal. Emoção diminuída supostamente tornaria esses pacientes mais propensos ao raciocínio utilitário. Mas uma pesquisa anterior realizada por Koenigs e Daniel Tranel, professor de neurologia dos Hospitais e Clínicas da Universidade de Iowa, com pacientes com lesão no CPFVM mostra o oposto. Naquele estudo, os voluntários participavam do “jogo do ultimato”. Nessa atividade, é oferecida uma soma em dinheiro a um par de jogadores. O jogador A propõe alguma divisão do dinheiro com o parceiro B; se este último rejeitar os termos da divisão, nenhum deles recebe nenhum dinheiro. Para o jogador B, a decisão estritamente utilitária é aceitar qualquer proposta, mesmo que receba apenas 1% do dinheiro, já que a rejeição da oferta implica nenhum ganho. A maioria das pessoas, porém, rejeita ofertas excessivamente desequilibradas porque determinadas propostas ofendem seu senso de justiça. Os jogadores com lesão de CPFVM, contudo, rejeitaram com maior frequência as ofertas desequilibradas que os indivíduos-controle – aparentemente por se sentirem insultados pela proposta desigual, ainda que lucrativa, o que invalida os argumentos utilitários. Um embotamento emocional geral e um maior raciocínio utilitário parecem, portanto, explicações improváveis para o comportamento dos pacientes com lesão de CPFVM.

Uma causa mais parcimoniosa, apresentada como hipótese em um artigo da Nature Reviews Neuroscience, é que razão e emoção cooperaram para produzir sentimentos morais. O CPFVM teria especial influência nos chamados “sentimentos pró-sociais” – que incluem culpa, compaixão e empatia. Eles emergem quando estados como tristeza e afiliação, que se originam das áreas límbicas, são integrados com outros mecanismos mediados por setores anteriores do córtex pré-frontal ventromedial – como avaliação de possíveis desfechos. Estudos que utilizam técnicas de imageamento funcional corroboram esta ideia. Como descrevemos num artigo de 2007 na Social Neuroscience e numa pesquisa anterior, o córtex participa ativamente não apenas dos processos explícitos de julgamento moral, mas também quando as pessoas são passivamente expostas a estímulos evocativos de sentimentos pró-sociais (como os despertados pela cena de uma criança com fome). Curiosamente, o CPFVM era acionado quando os voluntários optavam por sacrificar dinheiro para doar a obras de caridade – decisão que é, ao mesmo tempo, utilitária e emocional –, como descrevemos em um artigo de 2006 do Proceedings of the National Academy of Sciences USA.

A deterioração dos sentimentos pró-sociais, resultante de lesão na parte ventral (ou lado de baixo) do córtex pré-frontal, juntamente com uma capacidade preservada de experimentar reações emocionais aversivas associadas a ira ou frustração (dependendo mais dos setores laterais do córtex e conexões subcorticais), poderiam explicar os resultados dos dois estudos de Koenigs. Os pacientes com lesão de CPFVM que participam do jogo do ultimato, por exemplo, deixam que emoções como raiva e desdém governem as decisões não utilitárias para rejeitar ofertas injustas. Os pacientes com lesão de CPFVM foram mais práticos – ou utilitários – ao enfrentar dilemas morais difíceis, justamente porque a lesão nas partes centrais do córtex pré-frontal reduziu os sentimentos pró-sociais, dando vantagem relativa ao raciocínio impiedoso.

Esta explicação nos leva de volta ao dilema de Einstein. A carta de Einstein a Roosevelt ajudou a preparar os EUA e a construir as primeiras bombas atômicas. Aquelas bombas mataram dezenas de milhares de civis – mas, ao fazê-lo, deram um fim à Segunda Guerra Mundial. Teria sido cruel a escolha utilitária de Einstein, resultante das emoções sendo subjugadas pela pura cognição? Acreditamos que não. Aparentemente, a razão e os sentimentos de Einstein estavam trabalhando juntos muito bem, refletindo inteiramente a interação entre pensamento, emoção, empatia e presciência – bem como angústia e ambivalência – que complexas decisões morais incitam. 

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