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Prótese auditiva filtra ruído sonoro

Protótipo criado por equipe da UnB seleciona os sons a serem escutados. Projeto pode beneficiar 5,7 milhões de brasileiros

junho de 2007
© Stock.Xchng
(Agência UnB) − Com o uso de um aparelho auditivo, o auxiliar de escritório Daniel Silva, que ficou surdo após uma meningite, voltou a freqüentar a escola. Agora, seu problema é outro: ele escuta até demais. Como as próteses de ouvido amplificam todos os sons do ambiente, fica difícil discernir, num local barulhento, o que é realmente importante. Na sala de aula, por exemplo, a voz do professor disputa espaço com o som do ventilador, dos carros que passam na rua e até da faxina realizada no corredor. Mas o transtorno de Daniel, compartilhado com cerca de 5,7 milhões de brasileiros portadores de deficiência auditiva, está prestes a acabar.

Uma equipe de engenheiros eletricistas da Universidade de Brasília (UnB) está desenvolvendo desde 2006 uma prótese auditiva inteligente (PAI). O produto, inédito no mundo, vai permitir que o portador de deficiência selecione a direção da fonte sonora que deseja escutar, impedindo que interferências atrapalhem a conversa. “O aparelho convencional tem um microfone que amplifica todos os sons. A intenção é que com o uso de vários microfones e de um processador, o usuário selecione a direção dos sinais sonoros de seu interesse e, automaticamente, rejeite as possíveis interferências”, explica o professor Ricardo Zelenovsky, do Departamento de Engenharia Elétrica, coordenador da pesquisa.

Para realizar os primeiros testes, o grupo montou um arranjo de oito pequenos microfones comerciais de baixo custo e acoplou esse protótipo a um computador, que processa os sinais coletados. A análise inicial mostrou que a prótese funciona bem desde que o indivíduo a ser ouvido esteja a uma distância superior a 40 cm. Falta ainda solucionar a adequação do projeto para uma ampla faixa de freqüências que o ser humano escuta, com isso o deficiente auditivo conseguiria escutar até detalhes de uma música.
PRODUTO - Entre as vantagens do aparelho, Zelenovsky destaca o ganho de sinal, pela combinação dos microfones; a rejeição da interferência sonora, devido ao posicionamento dos mesmos; a capacidade de captar sons vindos de diversas direções; e a possibilidade de atingir uma distância maior, já que todos os microfones podem apontar para uma única direção. Para funcionarem bem, os microfones devem ficar afastados. Por isso, o aparelho, por enquanto, acaba tendo um tamanho maior do que o desejado.

A equipe pretende finalizar todo o protótipo, inclusive com o processador em tempo real (minicomputador) acoplado ao arranjo, no meio de 2008. Quanto à parte de engenharia de produto e de redução do tamanho da prótese, acredita-se que tudo deva ficar pronto em 2009. Mesmo com as pesquisas, a prótese não vai atingir a dimensão de um aparelho auditivo convencional. Por isso, a intenção é fazer com que ela funcione incorporada a objetos de uso cotidiano, como um par de óculos, uma caneta, ou um colar.

Essas aplicações já foram cogitadas em estudos feitos nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, mas até hoje não existe o produto pronto e nem a patente da idéia. Por isso, caso a equipe da UnB tivesse interesse, ela poderia patentear. “Não pensamos nisso ainda. Para nós, o mais importante é demonstrar que com materiais comerciais é possível se construir uma prótese auditiva inteligente”, afirma Zelenovsky. O projeto recebeu R$ 900 de financiamento da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec).