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Pesquisa compara processos de desenvolvimento infantil

O objetivo é oferecer uma ferramenta eficiente a profissionais da saúde que trabalham em centros de atenção básica e de educação infantil 

janeiro de 2017
Luca Loccoman
SHUTTERSTOCK

Aproximadamente 5 milhões de crianças no Brasil podem ser diagnosticadas com algum transtorno mental, segundo recente pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Hiperatividade, transtornos ansiosos e de aprendizagem, irritabilidade e depressão estão entre os distúrbios mais apontados pelos especialistas. E mais: cerca de 1 milhão de meninos e meninas apresenta dificuldades significativas em decorrência do uso de álcool e outras drogas. 

Infelizmente, desse total, aproximadamente 30% não têm acesso a atendimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que a atenção dada a essa população é bastante insuficiente em relação ao diagnóstico e tratamento – sem políticas públicas, milhares deixam de receber assistência adequada, o que vem preocupando muitos clínicos que atendem crianças, pois boa parte dos transtornos mentais na infância persiste, deixando marcas profundas. 

A pedido do Ministério da Saúde, um grupo de mais de 250 cientistas brasileiros – entre eles, psicanalistas, pediatras, psiquiatras e psicólogos – desenvolveu, com base na psicanálise, 31 Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil (IRDI), para uso pediátrico, que ajudam a acompanhar a saúde mental de bebês de 0 a 18 meses. 

Pioneira na literatura, a pesquisa coordenada pela psicanalista Maria Cristina M. Kupfer, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), propõe articular processos de amadurecimento neurológicos com o desenvolvimento psíquico. A ferramenta também é indicada para profissionais da saúde da atenção básica e de centros de educação infantil. 

Os indicadores são assimilados por meio da observação direta da relação do cuidador com o bebê, ou mediante entrevista, e foram desenvolvidos para buscar sinais de saúde mental, não de doença. Na suspeita de que algo não vai bem, ajudam a formular estratégias de intervenção.

Os pesquisadores selecionaram aleatoriamente 727 crianças de 0 a 18 meses, divididas em subgrupos de acordo com idade, filhos de pais que procuraram consultas pediátricas de rotina em serviços de saúde. Depois, os pequenos participantes foram encaminhados para médicos, previamente treinados pela equipe de psicanalistas, para avaliação com o protocolo IRDI. Durante os exames, os pediatras foram orientados a anotar indícios clínicos presentes, ausentes e não verificados. 

Após 18 meses de estudo, ficou constatado que 287 crianças apresentavam indícios de psicopatologias, das quais 158 continuaram na pesquisa. Aos 3 anos, os pequenos voluntários dessa subamostra foram submetidos a diagnóstico psicanalítico e psiquiátrico. Os resultados preliminares, publicados online no periódico Latin American Journal of Fundamental Psychopathology, mostram que o IRDI é capaz de predizer dificuldades no desenvolvimento infantil.  

CORRENDO CONTRA O TEMPO

Diagnósticos durante a infância devem ser feitos com muito cuidado. Essa fase da vida é marcada por mudanças imprevistas no desenvolvimento psíquico e intensas modificações relacionadas com a plasticidade neural. Fatores motores, fisiológicos, neurológicos, cognitivos e emocionais entram na conta. “Bebês em sofrimento psíquico apresentam sinais sutis. Crises de cólicas, quedas imunológicas e alterações de sono fazem parte do desenvolvimento natural”, destaca Maria Cristina.  

A psicanalista acrescenta que a maturação está associada aos processos de formação da vida mental e é extremamente sensível a eles. O modo como isso acontece depende tanto dos outros que convivem com a criança e são responsáveis por seus cuidados como da resposta desta às ofertas daqueles que a cercam. Quando há dificuldades nessa relação, identificar o problema e intervir rapidamente pode evitar que a situação se agrave. Ela alerta que quanto mais o tempo passa, maiores os riscos de prejuízos, com difícil reversão das consequências. 

Com base nessa ideia, em agosto de 2016, com votação unânime, vereadores de Curitiba tornaram obrigatório na região exame clínico para diagnóstico de autismo por meio do IRDI, segundo informações divulgadas no site da Câmara Municipal de Curitiba. A matéria segue para a sanção do prefeito e entra em vigor 60 dias após ser publicada no Diário Oficial do Município.

“Quando o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é identificado antes dos três anos de idade, com uma boa intervenção, a melhora das habilidades sociais pode chegar a 80%”, justifica o vereador Pier Petruzziello, autor da proposição. Os procedimentos clínicos serão incluídos no Código de Saúde de Curitiba e utilizados no acompanhamento de crianças, do nascimento aos 36 meses de idade, por profissionais especializados. A proposta é semelhante a outras já aprovadas pelo Legislativo, que incluíam os testes do coraçãozinho, da linguinha e de cariótipo para diagnóstico da síndrome de Down.

Diversas pesquisas neurocientíficas também apontam para a importância de intervenções precoces na primeira infância com foco terapêutico na relação entre o bebê e seus cuidadores. A pediatra e especialista em neonatologia Iole da Cunha, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que enquanto os pais conversam com o filho “olho-no-olho”, numa questão de segundos, milhares de células neurais se reorganizam pelo estímulo desta experiência particular. “Formam-se novas conexões, conferindo mais definição e complexidade ao intrincado circuito”, esclarece.

Segundo Iole, a neurociência mostra que a determinação genética que organiza o sistema nervoso do bebê é importante até 21 semanas de gestação. Mas, depois disso, “principalmente com o nascimento (prematuro ou a termo), a epigenética – ou seja, a experiência vivenciada desde os primeiros momentos, que tem a ver com os cuidados – tem imenso impacto na arquitetura cerebral, a ponto de interferir nas habilidades e relações futuras”, afirma. 

O CIRCUITO DO AFETO

A ciência também revela que o sistema nervoso dos pais passa por uma espécie de remodelação com a chegada do bebê. Em pesquisa recente publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry, uma equipe coordenada pelo psiquiatra James E. Swain, atualmente da Universidade de Michigan, demonstra por meio de exames de Ressonância Magnética Funcional (fMRI) que áreas cerebrais relacionadas com a criação de vínculos são mais ativadas durante a gravidez e no período pós-natal. 

Os psicólogos Craig Howard Kinsley, da Universidade de Richmond, e Elizabeth Meyer, hoje da Universidade do Colorado, afirmam que ter um filho aperfeiçoa alguns aspectos cognitivos, melhora a resistência ao estresse e aguça aspectos da memória. O sistema nervoso se reorganiza para transformar um organismo “autocentrado” em “preocupado”, antes de tudo, em cuidar da criança. 

O cérebro estimula o crescimento de novos neurônios, aumenta o tamanho de algumas estruturas e cria ondas de poderosos hormônios para defender a fisiologia, segundo Kinsley e Elizabeth. O resultado é um sistema nervoso central diferente e, em diversos aspectos, mais capaz de driblar os desafios cotidianos, mantendo o foco no bebê. 

Desde as primeiras horas de vida, a maioria dos recém-nascidos faz o possível para atrair e manter a atenção de seus cuidadores. As sensações provocadas pelo som do choro da criança, pelo odor de seu corpo e por seus gestos, como o de agarrar com força dedos ou cabelos do adulto, invadem o sistema nervoso altamente sensibilizado dos pais.   

Em outro estudo, a neurocientista Pilyoung Kim e seus colegas, atualmente da Universidade de Denver, descobriram aumento significativo, semanas e até meses após o parto, da matéria cinzenta no cérebro de mães – a área é uma camada de tecido abarrotada de neurônios. O crescimento ficou evidente na região medial do cérebro, nos lobos parietais e no córtex pré-frontal, áreas relacionadas com os cuidados com o bebê, segundo os cientistas. 

 “Homens estão igualmente aptos a compreender o choro de seus filhos como sinal de fome ou cansaço e responder a essa demanda da criança”, reconhece o psicanalista britânico John Bowlby em estudos feitos já na década de 70. Diante de um recém-nascido irrequieto, adultos de ambos os sexos têm respostas fisiológicas similares: alterações na frequência cardíaca, respiração e temperatura da pele. Assim como as mulheres, homens vendados conseguem distinguir seus bebês em meio a uma fileira de outros, numa enfermaria, apenas tocando suas mãozinhas.

A psicóloga Anne E. Storey e seus colegas da Universidade Memorial de New-foundland, no Canadá, descobriram recentemente que o nível de testosterona dos pais diminuiu em um terço nas primeiras semanas após seus filhos terem nascido, uma mudança que sugere que o homem fica menos agressivo e mais acolhedor nesse período.

É comprovado que, com a chegada do bebê, o cérebro passa por complexas alterações. Afinal, decidir ter e criar um filho exige desenvolver habilidades de proteção e defesa. É verdade também que a ciência pode explicar muitos aspectos cerebrais, mas há mistérios que não se resumem à biologia e são influenciados por questões psíquicas. 

Mesmo com todas as fantásticas transformações que preparam o corpo para receber o bebê, não há garantias de que as coisas corram bem. Está em jogo, também, a subjetividade dos pais e do filho. O IRDI ajuda a detectar precocemente patologias na relação entre a criança e seus cuidadores, o que permite rápida intervenção por meio de um modelo de tratamento que considera a subjetividade e o corpo numa dimensão não exclusivamente orgânica, mas também simbólica. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de novembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2eJCaHt 

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