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Psicanálise no hospital

Enquanto a medicina trabalha com doença em si, a psicanálise prioriza a experiência do adoecer. Conheça situações nas quais pode ser importante chamar o psicanalista

janeiro de 2015
Maria Lívia Tourinho Moretto
Ann Baldwin/Shutterstock

Há na atualidade a tendência a um discurso científico sobre o diagnóstico que toma o sofrimento psíquico pela vertente da patologia, favorecendo aquilo que um psicanalista entende como risco principal: o apagamento do sujeito. Muitas vezes, diante do sofrimento psíquico, a equipe médica se inquieta e se vale de determinadas expressões diagnósticas (tais como “ansiedade”, “depressão” etc.) para se organizar novamente, na medida em que essas expressões podem facilitar a suspensão das incertezas angustiantes, devolvendo aos profissionais a condição de agir com assertividade: sem vacilos, é verdade, mas também sem questionamentos.

Aqui devemos nos deter com todo cuidado a respeito do uso que se faz dos termos diagnósticos próprios de certo discurso de saber nesse contexto, não pelos termos em si, mas pela certeza com a qual eles são empregados. Isto é, justamente, o que nos preocupa: o que é eficaz para tratar da angústia da equipe pode não funcionar para o tratamento da angústia do paciente. Percebe-se que esse tipo de abordagem – a patologização do sofrimento, a medicalização dos lutos – indica pouca ou nenhuma disponibilidade em face do desamparo, podendo produzir ainda mais desamparo, o que por sua vez diminui significativamente a força que um paciente adoecido precisa ter para lutar pelo que lhe é possível.

Por isso, vale citar ainda algumas outras situações que envolvem o que chamamos aqui de “indicadores de risco”, nas quais é importante que os profissionais de saúde façam o chamado ao psicanalista, ainda que a situação não aparente iminente perigo de angústia. São elas:

- Quando a equipe percebe que o paciente está se identificando com a doença, ou seja, não faz a diferença entre “ter uma doença” e “ser uma doença”.

- Nos casos em que a equipe percebe que o paciente utiliza modos de enfrentamento contrários ou contraditórios à direção do tratamento; há chances de cura e ele se coloca como vencido pela doença, ou vice-versa.

- Em situações em que a equipe percebe a reação de “estranhamento” e/ou de racionalização excessiva por parte do paciente, ficando claro que ele se refere a sua doença como se esta não fosse sua, sem se apropriar dela.

- Quando a equipe encontra dificuldades para lidar com a “livre associação” do paciente a respeito de seus afetos e se foca na doença, dificultando a expressão do doente, destituindo-o de sua condição de sujeito, colocando-o meramente como objeto de seus cuidados.

- Diante da angústia do paciente, quando a equipe frequentemente utiliza uma atitude “explicativo-causal” sem sucesso, buscando fazer uso do diagnóstico psicológico para tentar entender o sofrimento psíquico do paciente.

- Nas ocasiões em que a equipe percebe que a família assume uma atitude de exigência de adaptação da pessoa a uma realidade que ela ainda não assimilou, ou, ainda, em que os entes queridos assumem uma atitude de negação da doença, agindo como se o paciente nada tivesse.

Saiba mais no artigo Psicanálise no hospital, na edição de janeiro de Mente e Cérebro. Nas bancas e na Loja Segmento

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