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Psicanálises, desdobramentos da teoria e da clínica

Na comemoração de seus 10 anos, Mente e Cérebro promove curso, com aula de apresentação gratuita, que traça panorama dos principais autores, abordagens e conceitos desenvolvidos a partir da teoria freudiana

agosto de 2014
NLShop/Shuttestock
É possível discutir a obra de Sigmund Freud (1856-1939), questioná-la, admirá-la, expandi-la ou mesmo discordar dela – mas parece pouco provável que qualquer pessoa que se proponha a entender o funcionamento psíquico e os atravessamentos da cultura possa permanecer indiferente a ela ou ao amplo campo de saber constituído por outros autores a partir da releitura e ampliação da teoria freudiana. Não por acaso, entre os variados campos de conhecimento, a psicanálise talvez seja o que mais evoca curiosidade – e também mal-entendidos.

O curso Psicanálises, teoria e clínica além de Freud: aproximações e distanciamentos, um dos eventos de comemoração dos 10 anos de Mente e Cérebro, é um convite ao conhecimento das principais abordagens psicanalíticas reconhecidas atualmente como importantes referenciais não apenas no atendimento clínico, mas também no trabalho de profissionais das mais variadas áreas. Em dez encontros, com duração de três horas cada um, será apresentado um amplo painel, tomando como base o trabalho de Sigmund Freud, Carl G. Jung, Jacques Lacan, Melanie Klein, Donald Winnicott, Wilfred R. Bion, Sándor Ferenczi e Joyce McDougall. Os inscritos receberão textos complementares.

Para ministrar as aulas foram convidados colaboradores de Mente e Cérebro, especialistas em cada autor (veja quadro abaixo). Antes do início do curso, no dia 4 de setembro, a psicóloga e psicanalista Gláucia Leal, editora-chefe da revista, fará uma aula aberta, destacando os pontos principais a serem focados no programa – uma espécie de degustação gratuita, um presente para os leitores. Nas duas quintas-feiras seguintes, Gláucia apresenta a introdução do curso, ressaltando raízes filosóficas do estudo da mente, ainda na Grécia antiga, bem como a influência de filósofos, médicos e, mais recentemente, as diversas escolas de psicologia, até chegar a Sigmund Freud.

Na sequência, a psicóloga e psicanalista Erane Paladino, mestre em psicologia clínica, expõe, em duas aulas, aspectos biográficos de Freud e a construção de sua teoria. “Serão tratados temas como funcionamento mental e sistema de representações psíquicas, desenvolvimento psicossexual, angústias e conflito edípico, sintomas, inconsciente, pulsões, noção de estruturas e organizações psíquicas”, adianta a professora do Instituto Sedes Sapientiae.

Embora não seja psicanalista, Jung também tem espaço no programa, dada a importância de suas contribuições para a compreensão do funcionamento psíquico. O psicólogo clínico Guilherme Scandiucci, mestre em estudos junguianos e pós-junguianos pela Universidade de Essex, no Reino Unido, e doutor em psicologia, discutirá criticamente os conceitos básicos que norteiam as interpretações clínicas e socioculturais, apresentando a situação atual da psicologia analítica e suas escolas, conceitos de complexo, arquétipo, imagem, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, além de exemplos da prática junguiana, tanto em relação à clínica quanto aos fenômenos contemporâneos.

O psicanalista Christian Dunker, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), apresenta pontos fundamentais sobre a vida e a obra de Lacan, tendo em vista a relação entre a sua tese do inconsciente estruturado como uma linguagem e suas proposições sobre os registros Real, Simbólico e Imaginário. “A proposta é mostrar que essas duas abordagens modificaram crucialmente a maneira de praticar a psicanálise e o lugar da psicanálise como teoria e ciência”, afirma.

Na aula sobre Winnicott, o pediatra e psicanalista Wagner Ranna, especialista em saúde mental e psicossomática psicanalítica, traz a contribuição fundamental do teórico inglês, que elucidou tantos aspectos do processo de desenvolvimento do psiquismo infantil. A criação do método de análise com crianças por meio do brincar e a ênfase na experiência emocional também fazem parte – embora de maneira muito diversa – da genial intuição clínica de Melanie Klein. Em sua aula, a psicanalista Elisa Maria de Ulhôa Cintra, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica e da graduação em psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mostra como Klein trouxe para o centro de sua prática a atitude de empatia com a angústia e o sofrimento do paciente. “Inspirada em casos clínicos e na atenta leitura de Luto e melancolia, de Freud, Klein criou a teoria das posições – depressiva e esquizoparanoide – e deu início a uma nova compreensão dos processos de perda, luto, entrada no tempo histórico e travessia do complexo de Édipo”, observa Elisa, coautora de Melanie Klein – Estilo e pensamento (Escuta, 2010).

Na aula sobre Wilfred R. Bion, um dos maiores pensadores do século 20, mas ainda pouco conhecido, Cláudio Castelo Filho, membro efetivo e analista-didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mostra como a obra inovadora do psicanalista revolucionou a teoria e a própria concepção da finalidade da psicanálise. “Ele trabalhou com pacientes esquizofrênicos e desenvolveu conceitos fundamentais e instrumentais como elementos alfa, função alfa, elementos beta, elementos de psicanálise, a impressionante teoria das transformações, que revolucionaram a prática psicanalítica, desde então definitivamente afastada do modelo médico de concepção e atuação”, conta Castelo Filho, doutor em psicologia social e professor livre-docente da USP.

Em sintonia com um movimento atual da psicanálise, a psicanalista Maria Elisa Pessoa Labaki pretende mostrar na aula dedicada a Ferenczi como a obra desse autor é atravessada por uma originalidade que, se na época não foi bem absorvida, hoje se mostra compatível com as necessidades de revisão impostas à clínica psicanalítica pelo advento de novas demandas de atendimento e escuta. “A proposta é contrapor diferenças nas teorizações entre Freud e Ferenczi, focando formulações em torno do trauma e sua gênese, bem como em relação a algumas propostas técnicas”, diz Maria Elisa, mestre em psicologia clínica e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é também professora do curso de psicossomática psicanalítica.

Na sequência, a psicóloga e psicanalista Ângela Figueiredo de Camargo Penteado, especialista em psicossomática psicanalítica e professora do curso de psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, ministra aula sobre a psicanalista contemporânea Joyce McDougall. Autora de vários livros traduzidos para o português, como Em defesa de uma certa anormalidade (Artes Médicas, 1983), Teatros do Eu (Zagodoni, 1992/2014), Teatros do corpo (Martins Fontes, 1996), As múltiplas faces de Eros (Martins Fontes, 1997), desenvolveu pensamento e prática clínica muito originais. “Seus textos têm uma marca comum, a vinheta clínica que nos ajuda a ampliar a escuta e o envolvimento com seus relatos”, comenta Ângela.

Inscrições e informações sobre o programa completo do curso na Loja Segmento.
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