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Quando o álcool modifica o cérebro

Desvendar a dinâmica neurobiológica pode ser muito útil na luta contra os problemas graves relacionados à bebida

abril de 2015
Andreas Heinz
SHUTTERSTOCK

Compreender como o álcool altera a química do cérebro oferece aos pesquisadores e aos próprios pacientes possibilidades mais eficientes de controlar a dependência. Pessoas que já tiveram problemas graves com a bebida e se mantêm sóbrias são, em geral, aquelas que aprenderam a conhecer a si mesmas, as próprias reações e as formas de lidar com as dificuldades. Nesse processo, levam vantagem aqueles que encaram um grande inimigo, capaz de fragilizar os melhores propósitos: o condicionamento do cérebro. Diante de situações em que estímulos (um local, por exemplo) ou emoções (como a frustração) remetem a circunstâncias anteriores em que a pessoa recorreu ao álcool, fica difícil resistir caso não esteja preparada para enfrentar o desafio. Nesse sentido, a compreensão do que acontece no próprio cérebro nos momentos críticos favorece o autocontrole. Duas situações mencionadas a seguir são bastante ilustrativas.

H., de 36 anos, não havia ingerido uma gota de bebida durante semanas graças a um programa de abstinência, mas uma simples caminhada noturna na qual passasse em frente a determinado bar apagava quase por completo sua vontade de permanecer sóbrio. Durante o dia ele não sentia o desejo de beber, mas, ao passar pelo estabelecimento à noite – via a luz aconchegante através das janelas e ouvia o tinir dos copos –, H. sentia uma forte tentação de entrar e pedir uma cerveja. Pesquisadores de dependências chamam esse fenômeno de “desejo condicionado”. Se uma pessoa sempre consumiu álcool numa mesma situação, um estímulo familiar tornará a sensação de necessidade da substância quase irresistível. Então, mesmo depois de anos de abstinência, consumir um único drinque pode desencadear um desejo poderoso de beber mais e mais.

A história de outro paciente, K., de 29 anos, ilustra outra tentação comum. O rapaz havia abandonado o álcool e estava indo bem, mesmo depois de ter sido demitido do trabalho e começado a receber o seguro-desemprego. Mas, numa visita ao local onde tratava dos assuntos relacionados ao desemprego, no centro da cidade, um funcionário se recusou a aprovar seu benefício por causa de um detalhe burocrático. Enquanto estava parado na plataforma do metrô esperando o trem para casa, ele de repente começou a transpirar e tremer e lembrou-se de que muitas vezes tomara algumas doses em situações de tensão. E, nesse momento, seu cérebro – moldado pela experiência – esperava o efeito calmante do álcool. Quando a droga não veio, K. começou a sofrer aquilo que os especialistas chamam de “crise de abstinência condicionada”.

A crise de abstinência e o desejo condicionados são produzidos no cérebro por mecanismos diversos – e nos últimos anos os neurocientistas têm investigado a fundo os dois fenômenos. Saber como o consumo rotineiro de álcool transforma os circuitos do cérebro de forma a levar à dependência ajuda no desenvolvimento de medicações e técnicas psicoterápicas mais eficientes para o tratamento do alcoolismo.


ANDREAS HEINZ é neurocientista, diretor da Clínica de Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade Charité, em Berlim.

 

Leia o texto completo: "Quando o álcool modifica o cérebro", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmentohttp://bit.ly/1FHaxa8

 

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