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Que roupa você usa?

Especialistas acreditam que o vestuário tem efeito sobre o que sentimos, pensamos e até na capacidade cognitiva

novembro de 2016
Matthew Hutson
SHUTTERSTOCK

O hábito faz o monge, diz o ditado popular. Pois é. Aquele velho conselho propagado por alguns livros de autoajuda para que a pessoa se vista para o emprego que deseja, e não de acordo com o trabalho que tem, parece ter respaldo científico. Estudos têm mostrado que as roupas que vestimos podem afetar não apenas a impressão que causamos nos outros, mas a autopercepção e até nosso desempenho mental e físico. Embora essas descobertas sobre o que alguns pesquisadores chamam de “cognição de indumentária” sejam provenientes, em sua maioria, de pequenos estudos em laboratório que ainda não foram replicados ou investigados no mundo real, uma quantidade cada vez maior de pesquisas sugere que algo biológico acontece quando colocamos uma roupa com a qual nos identificamos – e isso influi em nosso humor e, consequentemente, em atitudes e comportamentos. E revela algumas surpresas.  

Um artigo no periódico científico Social Psychological and Personality Science de agosto de 2015 mostra uma pesquisa na qual foi solicitado aos participantes que fizessem testes cognitivos. Antes disso, porém, foram divididos em dois grupos: metade deveria se vestir com roupas formais e outra parte se apresentaria com trajes casuais. Curiosamente, o fato de utilizarem um vestuário executivo “mais sério” parecia incrementar a capacidade de pensamento abstrato – um aspecto importante da criatividade e da construção de práticas estratégicas de longo prazo. Segundo autores do estudo, esse resultado pode estar relacionado a sentimentos de poder.   

Já um traje informal pode atrapalhar negociações. Em um estudo apresentado em dezembro de 2014 no Journal of Experimental Psychology: General, voluntários do sexo masculino eram divididos em três grupos: os integrantes do primeiro vestiam roupas comuns, bastante usadas e sem atrativos; do segundo, ternos; e os do terceiro, moletons esportivos. Na sequência, ingressavam num jogo que envolvia negociar com parceiros de outra equipe. Aqueles que usavam ternos obtiveram negócios mais rentáveis do que os participantes dos outros dois grupos. E aqueles que se vestiram pior apresentaram níveis de testosterona mais baixos.   

ÉTICA E CONCENTRAÇÃO
Pesquisadores fizeram outra descoberta interessante: para melhor concentração, pode ser útil se paramentar como um pesquisador. Numa pesquisa publicada em julho de 2012 no Journal of Experimental Social Psychology, os erros cometidos pelos voluntários eram reduzidos pela metade em tarefas que exigiam atenção quando vestiam um avental branco de laboratório. Numa outra tarefa de atenção, aqueles que eram informados de que seu avental era de profissional com doutorado na área da saúde desempenharam melhor do que aqueles a quem se dizia tratar-se de um avental para pintor ou aqueles que simplesmente viam uma amostra de avental de médico.

E os efeitos sobre o comportamento não valem só para roupas: acessórios também podem favorecer algumas atitudes. Durante um experimento, quando mulheres que usavam óculos escuros caros foram informadas de que a peça era falsificada (e não originais, como pensavam), elas passavam a praticar fraudes com maior frequência em experimentos de laboratório durante estudos que envolviam pagamentos em dinheiro. Os óculos falsificados também pareciam fazer com que as mulheres enxergassem o comportamento dos outros como suspeito. Autores do estudo, publicado na Psychological Science, defendem a teoria de que óculos falsificados aumentam o comportamento inescrupuloso ao fazer com que seus usuários se sintam menos autênticos. Os pesquisadores acreditam que, nesse caso, o que faz diferença não é o produto ter ou não marca famosa, mas o fato de tratar-se de um produto falsificado. 

TÊNIS VERMELHO
Estudos que investigam os julgamentos que fazemos das pessoas com base em suas roupas em geral constatam que as pessoas preferem que os trajes alheios correspondam às próprias expectativas: executivos de paletó e gravata, garotos usando azul e meninas variações do rosa. Porém, há uma exceção digna de nota. Uma série de estudos apresentados num artigo publicado no periódico científico Journal of Consumer Research revela a reação de observadores a pessoas que quebravam de modo discreto as normas estabelecidas. Em um contexto, um homem num evento social que exigia blacktie foi considerado como tendo um status e competência mais elevados, ao vestir uma gravata borboleta vermelha. 

Os pesquisadores também constataram que valorizar a singularidade aumentava a avaliação dos membros da plateia em relação à posição social e competência de um professor que calçava tênis All Star vermelhos ao fazer a sua palestra. Esses resultados indicam que as pessoas julgam esses leves desvios da norma como positivos, pois sugerem que o indivíduo é suficientemente autoconfiante para assumir os riscos dos custos sociais desses comportamentos. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de outubro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2ekCMnU 

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