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Quem é mais simpático: Gastão ou Pato Donald?

A forma como superam as dificuldades cotidianas faz com que personagens azarados agradem mais que os sortudos

maio de 2016
DIVULGAÇÃO

Intérpretes do imaginário coletivo, os personagens de Walt Disney resumem também nossa atitude diante da sorte. Gastão é a tal ponto sortudo que às vezes é obrigado a se defender da sorte que o brinda constantemente com honrarias e prêmios. Pode nos fazer rir, mas a simpatia do leitor – e de Margarida, que Gastão tenta, em vão, conquistar – vai para o azarado Donald. Gastão é irritante porque não faz esforço para ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o Pato Donald tenta, inutilmente, lutar contra o azar que o persegue. Tio Patinhas, por sua vez, obteve êxito financeiro com muito trabalho.

Em suma, a sorte nos agrada, mas os sortudos, nem tanto. “Em parte porque”, comenta Wiseman, “é sempre mais consolador encontrar alguém mais tolo ou azarado que nós.” E talvez também porque as cômicas desventuras dos personagens dos quadrinhos – catastróficas, mas sem consequências permanentes – nos ajudam a tornar mais leves acontecimentos graves. Torcemos pelo Coiote em suas tentativas, sempre fracassadas, de capturar Beep Beep. E gostamos da ironia com que Charlie Brown comenta os pequenos desastres cotidianos que marcam sua vida. A simpatia desses personagens nasce da energia com que enfrentam as dificuldades cotidianas. Assim, no mundo dos quadrinhos e do cinema, são poucos os personagens afortunados, como Lucky Luke, o imbatível pistoleiro criado pelo belga Morris. 

Além disso, muitas vezes um super-herói deve suas características a um evento dramático que o tornou diferente das pessoas comuns e tem, assim, um “calcanhar de aquiles” que nos faz temer por seu destino. O próprio mecanismo da narrativa, que precisa ser alimentado por infortúnios e contrastes, torna a sorte algo pouco atraente. Parafraseando Tolstói, poderíamos dizer que todos os personagens sortudos são afortunados do mesmo modo e, portanto, um pouco tediosos. Isso foi explorado magistralmente por Pirandello ao retratar, no conto “O diploma”, o maléfico anti-herói Rosário Chiàrchiaro, que solicita e obtém um reconhecimento oficial de seus poderes funestos. Assim, ele consegue ao menos extrair alguma vantagem da superstição de seus compatriotas, que condenaram sua família e ele próprio à marginalidade.

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