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Ratinhos de bom coração

Animais desistem de comer chocolate para libertar companheiros presos em gaiolas; é o primeiro estudo a comprovar esse comportamento em camundongos

junho de 2012
© MASLOV DMITRY/SHUTTERSTOCK
Ajudar o outro sem perspectiva de recompensa é um comportamento exclusivamente humano? Experi­mentos recentes com animais sugerem que não. Um estudo publicado na Science mostra que roedores não hesitam em libertar um companheiro preso em uma gaiola, mesmo que isso signifique abrir mão de saborear um doce sozinho. A neurocientista Peggy Mason e os psicólogos Inbal Ben-Ami Bartal e Jean Decety, da Universidade de Chicago, analisaram o comportamento de roedores, dois por vez. Colocaram um dentro de uma gaiola e deixaram o outro livre. Observaram que, dos 30 ratinhos que ficaram soltos, 23 se esforçaram para abrir a porta da jaula do companheiro preso, apoiando o cor­po na grade para pressioná-la.

Para testar se o comportamento altruísta se repetiria se os roedores tivessem de desistir de uma recompensa para salvar o outro, os pesquisadores colocaram uma pi­lha de lascas de chocolate fora da gaiola. E o resultado, segundo relataram, foi surpreendente: apesar da ten­tação de saborear o doce (e da probabilidade de ter de dividi-lo com outro), a maioria dos ratinhos livres abriu as gaiolas e compartilhou a recompensa. “Na ‘ratolân­dia’, isso é fantástico”, avalia Peggy. A neurocientista, porém, ressalta que a motivação da ajuda pode ter sido a de tentar silenciar os chamados angustiantes dos rati­nhos confinados, embora acredite que eles não seriam suficientes para desviar a atenção da recompensa.

Esse é o primeiro estudo a demonstrar comporta­mento altruísta de roedores, mais um entre a série de experimentos que têm mudado a compreensão científica da empatia, que é a capacidade de reconhecer e de se identificar com as emoções alheias. “Parece que muitos animais desenvolveram o instinto de ajuda, mesmo em detrimento de si próprios. O altruísmo pode fazer parte de nossa biologia, e não ser um traço da personalidade, como se acreditava”, diz Peggy.