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Reféns da bebida dos pais

Filhos de dependentes de álcool sentem culpa pelo problema dos pais e têm dificuldade de amadurecer, alerta estudo

setembro de 2007
André Ziller/UnB Agência
(Agência UnB) − Apesar do maior prejudicado pela dependência de álcool ser o próprio dependente, a família também é afetada pelo excesso de bebida. A mulher, os filhos e parentes também acabam, de certa forma, se tornando reféns dessa doença. Interessada em investigar como os filhos encaram a dependência dos pais, a psicóloga Eliana Vilar Trindade defendeu a tese de doutorado Filhos de Baco: adolescência e sofrimento psíquico associado ao alcoolismo paterno pelo programa de pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB).

Eliana trabalhou com grupos de ajuda a dependentes de álcool durante 14 anos. Durante esse tempo, percebeu que os adolescentes acompanhantes dos seus responsáveis se sentiam muito desconfortáveis nas instituições de tratamento. "Os jovens passam por um sofrimento muito grave, principalmente porque estão em uma fase sensível da vida", afirma a psicóloga.

Curiosa por descobrir detalhes sobre esse desconforto, Eliana escolheu seis jovens (três garotas e três garotos), com idades entre 12 e 17 anos, para acompanhar durante o tratamento dos familiares. A pesquisadora descobriu, por meio de entrevistas, que eles se sentem culpados pela condição dos pais. E as conseqüências podem ser graves. "Os meninos adquirem medo do futuro e do fracasso. As meninas, por sua vez, ficam com receio de se relacionar com o sexo oposto, pois tomam todos os homens pelo modo como o pai se comporta", relata Eliana, que também é professora.

INDIVIDUALIZAÇÃO - E os malefícios vão mais além. Segundo Eliana, a condição de filhos de dependentes atrapalha o processo de individualização dos adolescentes. Isso significa que eles têm dificuldade de crescer, de se tornarem adultos independentes. Como precisam cuidar da família, esses jovens não têm tempo para prestar atenção em si mesmos. Muitas vezes, inclusive, os filhos homens ganham o status de substituto marital. Ou seja, viram protetores da própria mãe, tomando o lugar do "homem da casa".
Outro problema que costuma atrapalhar a vida desses adolescentes é a tendência que eles têm em repetir o comportamento paterno. Além disso, por mais que as meninas se sintam receosas, elas acabam se envolvendo com homens que abusam da bebida. .

"Esse tipo de problema pode ser visto de maneira negativa ou positiva. É importante que os jovens não se sintam culpados pela condição dos pais, e que também não culpem o dependente por beber demais", aconselha a pesquisadora.

Aqueles que não conseguem assimilar a situação acabam reagindo de maneira agressiva, o que dificulta qualquer entendimento. Mas Eliana relata o caso de um garoto que conseguiu desenvolver respostas criativas para o problema. O jovem fazia parte de um grupo de rap e trabalhava o tema nas letras das músicas que escrevia.

POBREZA - Os jovens que participaram da pesquisa de Eliana tinham que lidar com mais um problema. Eles viviam em contato permanente com a pobreza, expostos à violência urbana e a abusos sexuais. A psicóloga lembra que pessoas nessa situação precisam de, pelo menos, um interlocutor adulto saudável para poder discutir sua condição.

"Esses jovens enfrentam falta de apoio institucional e são muito estigmatizados socialmente", lamenta a pesquisadora. Eliana trabalhava no Programa Integrado de Saúde do Alcoolismo de Sobradinho, que funciona no hospital público da cidade, e via como os dependentes de álcool eram discriminados por lá. "As pessoas acham que eles estão tomando o lugar de doentes graves", relata.