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Resistência científica tem origens na infância, dizem psicólogos

maio de 2007
Gallerie dell\\`Accademia, Veneza
(Agência Fapesp) – A resistência em aceitar idéias e fatos científicos tem sido uma preocupação em diversas sociedades. Pesquisa feita nos Estados Unidos em 2005, pelo instituto Pew Trust, mostra resultados nada animadores para a comunidade científica e educadores. Dos entrevistados, 42% disseram acreditar que humanos e outros animais existem em sua forma atual desde o início dos tempos, em noção que contradiz a própria existência da evolução.

“Muitos disseram acreditar na eficácia de intervenções médicas não comprovadas cientificamente, na natureza mística de experiências não corporais, na existência de entidades sobrenaturais do tipo fadas e fantasmas e na legitimidade da astrologia, adivinhação e percepção extra-sensorial”, destacaram Paul Bloom e Deena Skolnick Weisberg em artigo publicado na edição de 18 de maio da revista Science.

No texto, os pesquisadores do departamento de psicologia da Universidade de Yale descrevem a origem da recusa em aceitar noções científicas. “Essa resistência tem implicações sociais importantes, uma vez que um público cientificamente ignorante está despreparado para avaliar políticas a respeito de temas como aquecimento global, vacinação, organismos geneticamente modificados, pesquisa com células-tronco e clonagem.”

Segundo os pesquisadores, a resistência tem origem especialmente em concepções e inclinações presentes na infância e que continuariam por toda a vida adulta. Adultos resistiriam a fatos científicos por não os encararem como intuitivos ou naturais, comportamento que derivaria de suas experiências quando crianças.

“A principal fonte de resistência está relacionada ao conhecimento das crianças antes de serem expostas à ciência. O problema em ensinar ciência a crianças não é tanto o que o estudante não tem, mas o que ele tem, ou seja, uma estrutura conceitual alternativa para compreender os fenômenos cobertos pelas teorias que tentamos ensinar”, disseram.
Um exemplo dado pelos autores está na noção já presente em crianças pequenas de que objetos caem ao ser soltos, o que complicaria a compreensão a respeito da forma terrestre. Se o planeta é redondo, por que pessoas do outro lado não caem para fora dele? Seria uma dúvida comum.

Para os pesquisadores, apenas aos 8 ou 9 anos as crianças passariam a entender questões como gravidade, ainda que muitos continuem a representar em atividades escolares a Terra, por exemplo, como uma meia esfera de topo achatado ou como uma esfera oca em que as pessoas viveriam no interior.

“A resistência à ciência é particularmente exagerada em sociedades em que ideologias não científicas contam com vantagens de estarem tanto imbuídas no senso comum como transmitidas por fontes consideradas fidedignas”, afirmaram.

Ou seja, a resistência a noções científicas seria ainda maior em situações em que haveria uma alternativa não científica, baseada em senso comum e aceita por pessoas ou setores considerados confiáveis.

“Esse é o cenário atual nos Estados Unidos, em relação a princípios fundamentais em áreas como neurociência ou biologia evolucionária. Tais conceitos se chocam com crenças intuitivas, que são defendidas e transmitidas por autoridades políticas e religiosas”, destacaram.