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Terapia de choque em filmes perpetua imagem negativa do método

A eletroconvulsoterapia se tornou relativamente segura, e pode ser benéfica para casos de doenças mentais graves

julho de 2014
Nasko/Creative Commons
Apesar de a terapia de eletrochoque ser uma técnica cercada de preconceitos, há casos em que pode ser uma solução razoavelmente segura para algumas doenças mentais graves. Em sua forma atual, não se trata de um castigo cruel, como muitas vezes é retratada. Em determinadas circunstâncias, quando tudo mais falha, vale a pena considerá-la como opção para aliviar um intenso sofrimento psicológico.

Em uma pesquisa com 24 filmes que abordam o tratamento, os psiquiatras Andrew McDonald, da Universidade de Sydney, e Garry Walter, da Central Coast Health do Norte de Sydney, em Nova Gales do Sul, apontam que as representações sobre o método são geralmente pejorativas e imprecisas. Na maioria dos casos retratados, a técnica é aplicada em pessoas totalmente conscientes e aterrorizadas, sem seu consentimento e, não raro, como castigo pela desobediência. Após os choques, os pacientes geralmente passam a dizer coisas incoerentes ou permanecem num estado de apatia. Em seis dos filmes analisados, pioram drasticamente ou morrem.

É muito provável que o modo como o assunto é tratado nos filmes colabore com atitudes negativas do público em geral sobre a ECT. Uma pesquisa de 2012, desenvolvida pelas psicólogas Annette Taylor e Patricia Kowalski, da Universidade de San Diego, com 165 universitários do curso de psicologia (presumidamente mais informados sobre terapias para doença mental), demonstrou que aproximadamente 74% dos participantes concordavam que o procedimento é fisicamente perigoso. Outro estudo de 2006, com 1.737 suíços, coordenado pelo psicólogo Christoph Lauber, na época do Hospital Universitário de Psiquiatria em Zurique, revelou que 57% consideravam a ECT prejudicial; apenas 1,2% apoiava a utilização.

Coloquialmente chamada de “terapia de choque”, a técnica foi introduzida em 1938 pelos neurologistas italianos Ugo Cerletti e Lucio Bini como um tratamento para a psicose. (Aparentemente, Cerletti se inspirou ao observar que vacas que iam para o abate ficavam sedadas depois de receberem uma carga elétrica.) O tratamento é simples: eletrodos são colocados na cabeça do paciente, por onde passa uma corrente elétrica que provoca mudanças na química e na atividade cerebral.

Assim como muitos temiam, de fato a intervenção era perigosa antes de meados dos anos 50. Na época, os pacientes permaneciam acordados durante a ECT. Os choques causavam convulsões e os movimentos produzidos eram tão bruscos que chegavam a quebrar seus ossos.

Hoje em dia, nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, os pacientes recebem a ECT com relaxante muscular e anestesia geral, administrados para conter movimentos desordenados durante o episódio epilético (inerente ao uso da técnica) e diminuir o desconforto geral. Embora ainda passem por essa crise, permanecem inconscientes durante o procedimento e não sentem dor nem enfrentam convulsões observáveis. Além disso, as ondas cerebrais e outros sinais vitais são monitorados para assegurar o bem-estar da pessoa.

Esses avanços tornaram a ECT mais segura e menos assustadora. Em uma pesquisa de 1986, com 166 pacientes submetidos a eletroconvulsoterapia, os psiquiatras C.P.L. Freeman e R.E. Kendell, da Universidade de Edimburgo, relataram que 68% dos voluntários descreviam a experiência como não mais perturbadora do que uma visita ao dentista. Para os outros, era mais desagradável, porém indolor.

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