Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Ricas, complexas e coloridas

Filósofo Robert C. Solomon reúne perspectivas da neurociência, psicologia e filosofia para discutir as emoções

 

abril de 2015
Fernanda Teixeira Ribeiro
SHUTTERSTOCK

“Não pude evitar, estava com raiva”; “Disse aquilo porque estava com ciúme de você.” Para o senso comum, assim são as emoções: imprevisíveis, incontroláveis, irracionais. Visão questionada pelos estudiosos do cérebro e da mente. O neurocientista António Damásio, autor de O erro de Descartes (1994), é categórico: razão e emoção trabalham juntas – na aprendizagem, ao tomarmos decisões, na adaptação de comportamentos, entre tantos outros processos do cérebro. Pense, por exemplo, no medo, uma emoção fundamental. A princípio, soa interessante viver sem ela. Você pularia de paraquedas, tentaria um novo emprego, o que mais? Também não olharia para os dois lados ao atravessar a rua ou arriscaria a vida reagindo a um assalto. Ou imagine a raiva. Ela pode motivar (e com frequência isso acontece) reações destrutivas, mas é recurso indispensável para que nos indignemos com injustiças e maus-tratos e para que percebamos situações que nos prejudicam.

Emoções são necessárias para nossa interação com mundo. “Somos bastante ativos quando as constituímos e cultivamos. Em outras palavras, não podemos simplesmente usá-las como desculpas para o mau comportamento”, escreve Robert C. Solomon em Fiéis às nossas emoções (Civilização Brasileira, 2015). Professor de filosofia da Universidade do Texas até a sua morte, em 2007, Solomon estudou as emoções ao longo das últimas três décadas do século passado, período em que a neurociência trouxe grandes contribuições para os estudos sobre os aspectos biológicos das emoções, graças ao avanço nas tecnologias de imageamento do cérebro. Voltando ao medo: a descoberta de que uma estrutura específica do cérebro, a amígdala, reage particularmente a estímulos ameaçadores levou muitos cientistas a considerá-la como o “lugar do medo” no cérebro. Uma visão reducionista dessa conclusão descreve emoções como funções biológicas e não conscientes, concepção que Solomon confronta. “Sem dúvida, emoções podem ser inconscientes e podem não envolver, de início, o córtex cerebral. Mas isso não significa que não possam ser sentidas, reconhecidas ou admitidas”, escreve, defendendo sua ideia central, chamada por ele de “integridade emocional” – um processo de responsabilizar-se pelas próprias emoções, a “fidelidade” referida no título do livro. “Geralmente negamos a responsabilidade por nossas emoções pela mais interesseira das razões: criar desculpas para nossos comportamentos”, diz.

No início da obra, Solomon discute como as emoções foram abordadas na maior parte da história: tratadas como irracionais pela ortodoxia científica ou classificadas como necessariamente boas ou más pela moral cristã. Em oposição, o autor propõe tratá-las através das lentes da ética, mas não no sentido de moral (lugar-comum), mas no seu significado original, da filosofia clássica: buscar uma vida de bem-estar, de melhor convívio consigo mesmo e com os outros. Uma perspectiva que convida a refletir sobre como criar consciência de nossas emoções nos torna mais autônomos e amadurecidos, mais propensos a atuar no mundo, e não meramente reagir a ele. Solomon dedica um capítulo à raiva – abordada como “forma de engajar o mundo” – e outro ao amor. Também discute, em suas palavras, “as emoções sórdidas”: inveja, rancor, ciúme, ressentimento e vingança. Na segunda parte do livro, desconstrói mitos sobre as emoções: diferencia-as do conceito de sentimentos e combate a ideia de que são forças psíquicas internas que “simplesmente acontecem”, destituídas de inteligência. Como pontua, sua preocupação está em abordar as emoções como representações expressionistas abstratas: ricas, complexas e coloridas.

 

Fiéis às nossas emoções – O que elas realmente nos dizem.
Robert C. Solomon.
Civilização Brasileira, 2015.
448 págs. R$ 59.

Esta resenha foi originalmente publicada na edição de abril da Mente e Cérebro, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FHaxa8

 

Leia mais:

Expressar raiva pode fazer bem à saúde – mas depende do contexto
A crença de que manifestar raiva é prejudicial deve ser relativizada de acordo com a cultura

Pequenos rebeldes
É comum que crianças pequenas façam birra; algumas, no entanto, são propensas a crises mais violentas. Em certos casos, o acompanhamento profissional pode ajudar a evitar a agressividade crônica