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Santas e anoréxicas

novembro de 2006
Gláucia Leal
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Tanto a bulimia quanto a anorexia são transtornos prevalentemente ligados às questões da feminilidade, a ideais inatingíveis de corpo perfeito, de magreza. Em seu livro Anorexia mental, ascese, mística (Editora Companhia de Freud), o psicólogo e psicanalista francês Eric Bidaud compara as anoréxicas de hoje às santas da Idade Média, que se abstinham do alimento e jejuavam por dias a fio. A santa italiana Catarina de Siena (1347-1380), por exemplo, induzia o vômito. A psicanalista Alessandra Sapoznik, professora do Programa de Orientação e Assistência a Pacientes com Transtornos Alimentares da Unifesp, explica: "o que marca a diferença entre as santas e as meninas anoréxicas de hoje é que as primeiras jejuavam em nome de um ideal coletivo, um ritual partilhado socialmente, enquanto as pacientes têm um ideal próprio, uma espécie de \\`religião particular\\`, como afirma Bidaud".
O transtorno é classificado como anorexia restritiva (jejum) e anorexia purgativa ou bulímica (com indução de vômito). O que diferencia clinicamente bulimia da anorexia é o índice de massa corporal (IMC), inferior a 17,5, no caso das anoréxicas, e o grau de distorção da própria imagem. É possível também observar variações de características psicológicas. A anoréxica se exclui da relação com o outro, se enclausura, nega a própria sexualidade e o corpo como campo de frustração ou excitação.

A bulímica tem também o medo mórbido de engordar, mas destaca-se pela compulsividade, não se retira das atividades sociais, é voraz, sexualmente ativa. Há também duas classificações: a bulimia não purgativa (em que após episódios de voracidade o excesso é compensado pelos exercícios físicos) e a purgativa (com indução de vômitos). Do ponto de vista médico, os casos de purgações são os mais graves, já que ao induzir vômitos a pessoa provoca no organismo um desequilíbrio eletrolítico entre o potássio e o sódio, podendo entrar em coma ou sofrer parada cardíaca.

"Os dois transtornos formam um contínuo patológico de excessos", considera Sapoznik. Para a psicanalista, tanto a obesidade quanto a bulimia e a anorexia podem ser consideradas formas de transgressão, maneiras dolorosas de expressar no próprio corpo a necessidade de distinguir-se como sujeito, de encontrar uma identidade. Segundo ela, atribuir a etiologia a fatores externos seria ingênuo, mas é inegável que há elementos da contemporaneidade, da grande oferta de produtos, da cultura narcísica que expõem a falta e ao mesmo tempo não toleram a imperfeição. "A clínica dos transtornos alimentares é marcada pela metáfora dos opostos, lidamos o tempo todo com as idéias de cheio-vazio, excesso-falta, há uma oscilação entre a fusão total com o outro e o movimento de total afastamento."

Para ler o dossiê completo Anorexia, bulimia & obesidade, adquira na Loja Duetto a revista Mente&Cérebro, edição 152.