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Semelhanças entre a ocitocina e o álcool

Conhecida como o hormônio do amor, a substância pode apontar caminhos para o tratamento da dependência química

novembro de 2015
SHUTTERSTOCK

Muitos estudos valorizam as ações positivas da ocitocina: facilita a criação de vínculos afetivos, ajuda a aumentar a confiança e a promover o altruísmo. Por essas características, ganhou um apelido, o “hormônio do amor”. Pesquisas mais recentes mostram, no entanto, que a ocitocina tem um lado sombrio também: pode favorecer a agressão, o preconceito e o impulso para assumir riscos. Uma metanálise publicada na Neuroscience and Biobehavioral Reviews revela que seus efeitos no cérebro e no comportamento de fato se parecem muito com outra substância que também pode atuar em ambos os sentidos: o álcool. O hormônio, portanto, apontaria para novos tratamentos contra a dependência.

De acordo com a equipe de pesquisadores liderada pelo psicólogo Ian Mitchell, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, tanto a ocitocina como a substância etílica colaboram para a redução do medo, da ansiedade e do estresse, além de aumentar a confiança, a generosidade e o altruísmo. No entanto, ambas ajudam também a intensificar a agressão, o impulso para assumir riscos e o favoritismo (ou seja, a ação de beneficiar semelhantes em detrimento de outros).

Os cientistas acreditam que essas similaridades existem porque o hormônio e o álcool agem em diferentes pontos de uma mesma via química do cérebro. A ocitocina estimula a liberação do neurotransmissor GABA, o que tende a reduzir o funcionamento neural. E a substância etílica se liga aos receptores desse aminoácido e constrói a sua atividade. A ocitocina e o álcool, por conseguinte, provocam o efeito geral de reduzir o funcionamento do cérebro – que talvez explique por que ambos diminuem a ação do sistema inibitório.

Ensaios clínicos com um spray nasal à base de ocitocina mostram que a substância ajuda a reduzir o desejo de consumir bebida alcoólica e os sintomas relacionados à abstinência. Esses resultados inspiraram outro estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences USA, que sugere que o “hormônio do amor” e a substância etílica não só compartilham o mesmo caminho neural como podem interagir fisicamente. Os pesquisadores mostraram que a ocitocina impediu o comprometimento motor em ratos por meio do bloqueio da subunidade do receptor GABA tipicamente vinculada ao álcool. Mitchell suspeita que essa interação seja específica para as regiões do cérebro que regulam o movimento, “poupando, assim, os déficits motores habituais associados à substância etílica, mas ainda influenciando os processos sociais e afetivos”.

Os dados sugerem que o hormônio ajudaria a não exagerar no álcool – ou pelo menos não achar a bebida tão atraente. Também oferecem uma possível explicação biológica sobre por que o apoio social é tão eficaz no tratamento de dependentes químicos. A maior esperança dos pesquisadores agora é que, em um futuro próximo, a semelhança entre esses dois produtos químicos permita o desenvolvimento de terapias para dependência química à base de ocitocina.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de novembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1Hug1BN

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