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Ser ou não ser

Wagner Moura volta a encenar Hamlet, em São Paulo, personagem símbolo da subjetividade humana

dezembro de 2008
Sandra Delgado
Recontar histórias é um dos recursos simbólicos para elaborar o que há de traumático na experiência humana. Como o igual não causa estranheza, é preciso que a cena representada na fala, no olhar ou no gesto do outro seja um pouco diversa da vivência original. Esse deslocamento simbólico coloca o indivíduo diante do que lhe é estranhamente familiar, e ao mesmo tempo, perturbador – algo que mobiliza sua subjetividade. Talvez seja esse o elemento que faz de Hamlet, de Shakespeare, a peça mais encenada no mundo.

Priorizando o frescor e o despojamento que marcaram sua estréia, há quatro séculos, a adaptação de Aderbal Freire-Filho – que volta a ser apresentada em São Paulo neste mês – preserva características do -original, mas privilegia a “humanidade do que é dito”, segundo o ator Wagner Moura, que faz o papel do protagonista. A concepção do espetáculo se baseia na famosa orientação de Hamlet aos atores, no terceiro ato da peça.

Na história, Hamlet, príncipe da Dinamarca, é visitado pelo fantasma do rei, seu pai, que lhe conta como morreu: enquanto dormia, fora envenenado pelo próprio irmão, Cláudio, agora casado com a viúva, a rainha Gertrudes, mãe do rapaz. Instigado pelo pai a vingar sua morte, Hamlet se põe em dúvida a cada ato. Atormentado, mata Polônio, conselheiro do rei e pai de seu amigo Laerte e de Ofélia, sua amada; mas não consegue se decidir a matar Cláudio, senão no desfecho da tragédia.

A saída encontrada por Hamlet é levar o tio a se denunciar em público. Contrata, então, um grupo teatral para representar fielmente a morte do pai, diante do seu algoz que, no entanto, não se entrega. O que Hamlet não consegue mobilizar no tio, em sua reprodução literal da tragédia familiar, Shakespeare alcança em sua platéia, ao representar a complexidade dos dramas subjetivos de cada um.