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Será que seu cachorro ama mesmo você?

Pesquisa realizada na Suécia procurou investigar se o sentimento entre dono e cão é recíproco

março de 2016
ISTOCKPHOTO

Você ama seu cão. Mas pense bem... ele realmente sente o mesmo a seu respeito? Levando em conta que os cães são altamente sintonizados com seres humanos, um grupo de pesquisadores suecos e dinamarqueses suspeitou que os animais pertencentes a donos que sentiam ter um ótimo relacionamento com seus pets também eram mais próximos dos donos – talvez porque a atitude carinhosa dos proprietários levasse a maior frequência de interações positivas entre os dois.

Para entender melhor essa relação entre espécies, a pesquisadora Therese Rehn, da Universidade de Ciências Agrícolas da Suécia, selecionou 20 pares de donos e seus cães para participar do estudo, posteriormente publicado no periódico científico Applied Animal Behaviour Science. As pessoas responderam ao questionário Escala Monash de Relacionamento Cão-Proprietário (MDORS, na sigla em inglês), desenvolvido para avaliar a intensidade da convivência entre a pessoa e seu bicho de estimação. O MDORS contém 28 itens divididos em três escalas secundárias. A primeira avalia a natureza das interações cão-proprietário (“Quantas vezes você abraça seu cachorro?”, por exemplo); a segunda reflete a proximidade emocional que o dono sente em relação ao seu animal (“Eu gostaria que meu cão e eu nunca tivéssemos de estar separados”); e a terceira diz respeito ao investimento percebido necessário para cuidar de um cachorro (“Gasto muito dinheiro com ele”).

Os animais, por sua vez, foram submetidos a uma versão modificada do procedimento Ainsworth de “situação estranha”, um experimento projetado originalmente para medir a intensidade de relacionamentos humanos entre pais e filhos. Ele se centra na situação de uma criança, ou, no caso, um cão, deixado sozinho com um estranho. A versão canina começa com o proprietário sentado em uma cadeira, ignorando o cão. Após alguns minutos, um estranho entra na sala e, também ignorando o cachorro, fala com seu dono. O estranho então tenta brincar com o cão e logo em seguida o proprietário sai da sala. O estranho passa a engajar o bicho em uma brincadeira e então também vai embora, deixando o animal sozinho. Logo depois, o proprietário volta, cumprimenta o cão e torna a ignorá-lo. O estranho retorna, cumprimenta o cachorro e também o ignora. Por fim, o dono se ausenta outra vez.

Quando conduzido com crianças pequenas, a natureza ligeiramente angustiante da situação estranha ativa um sistema inato, adaptativo, que motiva a criança a buscar o conforto do pai ou da mãe. Ao observar atentamente as crianças e comparar suas condutas em busca de conforto com seus comportamentos exploratórios mais independentes, pesquisadores podem determinar se eles têm ou não laços emocionais seguros com seus pais. Crianças que sentem um apego mais firme são mais propensas a buscar proximidade com a mãe ou o pai quando estão estressadas, mas também tendem a brincar de forma independente assim que se sentem novamente confortáveis.

Os pesquisadores previram que, no teste, cães cujos proprietários percebiam o relacionamento com seus pets como intenso se comportariam de maneira semelhante à de crianças com vínculos emocionais fortes com figuras parentais. Em vez disso, porém, eles só encontraram duas correlações significativas. Quando cachorros foram reunidos com seus donos após ficarem sozinhos, aqueles cujos proprietários relataram ter muitas interações com os animais procuraram essas aproximações mais afoitamente, o que pode parecer um vínculo forte, mas também poderia ter sido um reflexo de recompensas recebidas por buscar o contato físico. E, ao contrário de crianças com apego seguro, os cães desses proprietários se mostraram menos propensos que outros a brincar de modo independente na situação estranha. Dessa forma, eles pareceram crianças com apego inseguro. Mas cães não são crianças e, como tal, não exibiram a ansiedade de crianças com apego inseguro; portanto, essa última constatação é difícil de interpretar.

A importância desse estudo está em marcar uma das primeiras tentativas de investigar a conexão entre a percepção canina de seus vínculos com seus donos e as percepções que proprietários têm dos vínculos com seus cachorros. “Não houve correlação entre a escala secundária de ‘proximidade emocional percebida’ no questionário MDORS e o comportamento dos cães na situação estranha, assim como não constatamos nenhuma evidência para apoiar a noção de que, só porque uma pessoa tem forte ligação emocional com seu cão, esse animal está apegado a ela.” Ou seja: é possível que, diante da demanda humana de amor, o cão se sinta “convidado” a amar de volta – ainda que essa não fosse sua primeira escolha. (Por Jason G. Goldman, jornalista especializado em divulgação científica e especialização em ciências cognitivas)

 

Leia mais sobre o assunto na edição de março de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1RA98mI

 

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