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Será que você sabe tanto quanto pensa que sabe?

Cientistas acreditam que as pessoas tendem a se iludir a respeito das próprias competências e costumam superestimá-las

novembro de 2016
SHUTTERSTOCK

Nada mais natural do que confiar em nossos instintos se achamos que conhecemos muito sobre determinado assunto. Certo? Não necessariamente. Novas pesquisas sugerem o oposto: pessoas que se declaram especialistas são muito mais propensas a manifestar o que alguns psicólogos denominam overclaiming – ou seja, afirmar ter o domínio de conhecimentos que na verdade não têm.

As pessoas dizem saber coisas que não sabem por uma série de motivos, incluindo insegurança e desejo de influenciar a opinião dos outros. Em situações em que acreditam estar sendo julgadas ou avaliadas, tentam parecer mais inteligentes. Mesmo assim, algumas vezes dizer que sabemos mais do que temos conhecimento de fato não é simplesmente um ato deliberado, com o intuito de ludibriar os outros, ainda que por fragilidades, como o medo de não ser aceito. O que cientistas dizem é que essa atitude revela uma superestimativa honesta – embora ilusória – do próprio conhecimento. 

Em uma série de experimentos publicados em julho na Psychological Science, pesquisadores da Universidade Cornell testaram a probabilidade de homens e mulheres afirmarem saber mais do que de fato sabem em uma variedade de contextos. Nos primeiros dois experimentos, os participantes avaliavam o grau de conhecimento que acreditavam ter a respeito de uma variedade de tópicos e, na sequência, avaliavam seu grau de familiaridade com cada um dentre 15 termos propostos, três dos quais não eram legítimos. Quanto mais conhecedoras as pessoas se avaliavam sobre determinado tópico, mais propensas eram a afirmar conhecerem expressões e conteúdos não legítimos naquela área. 

Num terceiro experimento, outros participantes foram submetidos aos mesmos testes, porém já tinham sido anteriormente informados de que haveriam termos falsos misturados aos corretos. O alerta reduziu o ímpeto dos voluntários de afirmar saber aquilo que não sabiam de fato, mas não alterou a correlação positiva entre autopercepção de conhecimento e a atitude de professar mais sapiência do que realmente tinham. 

Em um experimento final, os pesquisadores manipularam a capacidade de percepção de conhecimento dos participantes ao dar a um grupo um questionário de geografia bastante difícil, a outro grupo um fácil e ao terceiro, nenhum. Os participantes que concluíram o questionário fácil avaliaram saber mais de geografia do que os participantes dos outros grupos e, consequentemente, se mostraram mais propensos a afirmar ter conhecimento dos termos falsificados em um teste subsequente.

Os resultados sugerem que, se você está convicto de que sabe muito sobre algo, é melhor conferir a informação, para não correr o risco de cair na armadilha de passar reto pelas palavras e conceitos que parecem familiares. Além disso, os pesquisadores ressaltam que as pessoas que acreditam saber mais do que de fato sabem são menos propensas a dar continuidade aos estudos, ou podem oferecer conselhos e sugestões sobre tópicos dos quais não têm pleno conhecimento. Na área da saúde, em especial da psicologia e principalmente do coaching, tão em moda atualmente, a autovalorização superlativa pode ser especialmente preocupante. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de novembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2eJCaHt 

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