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Longa francês aborda sexualidade e finitude

E se vivêssemos todos juntos? retrata a vida de idosos que se unem para cuidar uns dos outros 

janeiro de 2013
Patricia Porchat
Divulgação
O céu espera a todos... Mas, antes disso, ainda temos bastante tempo.  E se vivêsssemos todos juntos? retrata a vida de um grupo de amigos idosos que, num determinado momento da vida, opta por morar junto para que cuidem uns dos outros para evitar que terminem suas vidas num asilo ou em situação pior. A ideia parece genial. Retoma o lema hippie do “Paz e Amor” dos anos 60, 70. Se, afinal, somos tão amigos, por que não aproveitar e passar o tempo que nos resta nos vendo com mais frequência, bebendo, comendo e nos divertindo?

O casal Annie (Geraldine Chaplin) e Jean (Guy Bedos), o eterno Don Juan Claude (Claude Rich), e o casal Albert (Pierre Richard) e Jeanne (Jane Fonda) estão ligados por uma forte amizade que já dura mais de 40 anos. Albert perde a memória progressivamente e se apoia num pequeno caderno de anotações para, a cada dia, retomar o fio dos acontecimentos – embora nem sempre isso funcione. Jeanne tem um câncer que não lhe deixa muito tempo de vida pela frente e esconde a doença de todos. Ocupa-se em preparar o próprio enterro. Claude persegue momentos de prazer sexual junto a prostitutas ou a qualquer mulher que lhe dispense um pouco mais de atenção, inclusive suas grandes amigas Annie e Jeanne. Annie e Jean vivem numa casa maior do que o necessário. Ele tem o perfil do velho rabugento e ela lamenta a ausência dos filhos e dos netos. Decide construir uma piscina para atrair a família.

Esse é o contexto em que vivem quando finalmente se dão conta de que a sombra da morte recai sobre eles: Albert não possui mais força física para segurar o cachorro na hora do passeio, é perigoso levar um tombo; o coração de Claude fraqueja e se torna impossível subir vários andares de escada para chegar à alcova da prostituta; Jeanne teme morrer e deixar seu companheiro viúvo sem ter quem cuide dele... os limites vão se impondo a cada dia.

É curioso ver que o filme traz em primeiro plano não apenas o contraponto entre a vida e a morte, mas entre o sexo e a morte. De que falam os idosos? O que pensam? Aqui entra em cena um personagem, o jovem Dirk (Daniel Brühl), que será o fio condutor da trajetória de desejo e gozo de alguns dos moradores da casa. Dirk surge contratado primeiramente como um passeador de cães, torna-se um cuidador de idosos e paralelamente faz uma pesquisa sobre a velhice na Europa como observador participante – pois se instala na casa e passa a morar com o grupo, mas, no fundo, é da perspectiva de um psicoterapeuta (e não é exagero afirmar isso) que Dirk escuta e ajuda a realizar os desejos de cada um. 

A posição de Dirk é um dos pontos altos do filme.  Como se colocar em relação aos idosos? O que se pode dar a eles? O que eles querem? Em alguns momentos, trata-se de -ajudá-los a morrer, mas em outros momentos, trata-se justamente do contrário, de ajudá-los a viver!!  Dirk é sugado por Claude, -Jeanne e Albert. Desejam sua potência, sua juventude, seu afeto positivo – sem amargura e sem maiores temores. Anseiam por sua atenção, sua força física, sua disponibilidade. Querem colo, acalanto, mas também querem que escute – suas histórias e suas confissões. Dirk é o lugar da passagem, da circulação de discursos e afetos. Ele tem de ser testemunha, mas ao mesmo tempo seguir sua própria vida, afinal precisa transmitir aos moradores da casa a ideia de continuidade.

A república de idosos bota ainda em questão a amizade e a relação entre gerações. Os cinco amigos se dispõem a compartilhar e enfrentar não apenas os prazeres, mas a intimidade da doença e da finitude. Aceitam correr o risco de conviver com as idiossincrasias de cada um, com os segredos e as lembranças. Fazem uma aposta na castração como medida de todas as coisas. Tudo é ressignificado. E fica claro, para quem vê o filme, que esse compartilhar só é possível para quem não é filho ou neto. Não se trata de organizar a vida dos pais ou dos avós em função da saúde ou da praticidade voltadas para a morte. O que desejam os idosos do filme – e talvez a grande maioria por aí – parece ser o reconhecimento de seu próprio desejo, seja de sexo, seja de vida, seja de morte. 

E se vivêssemos todos juntos? 96 minutos – França/Alemanha, 2011. Direção: Stéphane Robelin. Elenco: Guy Bedos, Daniel Brühl, Geraldine Chaplin, Jane Fonda, Claude Rich, Pierre Richard.