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Sofrimento silencioso

Estudo da Universidade de Brasília
(UnB) mostra que abuso sexual contra meninos é subnotificado

junho de 2007
Agência UnB
(Agência UnB) − Nos casos de violência sexual contra menores, o silêncio é um escudo e um vilão. Manter sob segredo a agressão sofrida é um meio de se proteger de uma violação maior. Ao mesmo tempo, é garantia de impunidade para o agressor. No caso do abuso contra meninos, o problema é ainda mais preocupante. Mesmo quando o crime é descoberto por algum membro da família ou por vizinhos, o medo da exposição e da humilhação impede a denúncia às autoridades.

Preocupada com a invisibilidade deste tipo de abuso, a psicóloga Sônia Fortes do Prado pesquisou os fatores que contribuem para que a violência seja velada. Em sua dissertação de mestrado Dimensões da violência sexual contra meninos sob a ótica de gênero - um estudo exploratório, defendida em outubro de 2006 no Instituto de Psicologia Clínica (IP) da Universidade de Brasília (UnB), Sônia estudou, o caso de garotos e garotas, entre dois e 11 anos, que foram abusados por familiares. “Há uma subnotificação dos casos de violência sexual contra meninos. Isso se deve principalmente por vivermos numa sociedade patriarcal, em que a masculinidade é sinônimo de força”, explica a especialista. Os pais, então, não querem expor os filhos a mais uma humilhação.

De acordo com dados da Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) do Distrito Federal, foram registrados, em 2005, 101 casos de violência sexual – estupro ou atentado violento ao pudor –contra meninas menores de 18 anos. Em contrapartida, apenas 15 denúncias de crimes de violência contra garotos nesse mesmo ano. “A quase ausência de denúncias sobre meninos abusados sexualmente não significa, entretanto, que a violência não exista e que não mereça atenção”, afirma Sônia.

A especialista defende que o primeiro passo para diminuir a incidência de abusos contra meninos é não ignorar o assunto. “Temos que aumentar a compreensão sobre esse fenômeno que envolve muitos mitos, desinformação, discriminação e preconceito. Dentro de casa, inclusive, um dos meios de evitar a violência é conversar sobre sexualidade com as crianças, mas de acordo com sua idade”, aconselha. O diálogo serve para que o menino possa perceber que há algo errado em qualquer forma de carinho erotizado – um beijo, um toque, um jeito de segurar no colo.
PERFIL DO CRIME

Dos três crimes analisados pela psicóloga, as agressões aconteceram dentro de casa. As denúncias foram feitas pela mãe da vítima, por amigos ou vizinhos. Apesar de destacar que a violência sexual com menores possa acontecer em qualquer núcleo familiar –independente inclusive de renda –, Sônia observou fatores que colaboram para a sua ocorrência. Um deles é a existência de outro tipo de violência física ou psicológica dentro de casa. Segundo a psicóloga, em todas as três famílias entrevistadas, foi identificado algum tipo de agressão nas últimas três gerações.

“Verificamos ainda que, em todos os casos, havia um conflito conjugal em casa. Com isso, os pais se voltam para seus próprios problemas e não percebem se há algum problema com a criança”, acrescenta.

O consumo excessivo de álcool ou drogas e o desemprego também foram apontados como fatores que podem tornar o ambiente familiar mais propício ao quadro de violência. Outro ponto importante é o isolamento do casal e dos filhos em relação ao resto da família. “Quando os avós e tios moram longe, a criança ou mesmo a mãe não tem a quem recorrer e acaba se calando”, afirma Sônia. A falta de planejamento familiar, com uma gravidez precoce ou indesejada, pode também favorecer a ocorrência de abusos.
PROXIMIDADE

De acordo com a psicóloga, apesar de o sofrimento e a dor serem incomensuráveis em todos os casos de violência sexual, eles se manifestam de forma mais dura e cruel se o abusador tem mais proximidade com sua vítima, a partir de um familiar, por exemplo. “A violência vem então de onde ela menos espera e, por conseqüência, onde está menos protegida”, destaca.

Na pesquisa, Sônia também percebeu que as separações de casais são fatores que deixam a situação mais propícia à violação dos menores, já que um padrasto, por possuir menores vínculos com a criança, tem ainda menos compromisso com a sua proteção.

CONSEQÜÊNCIAS

A violência sexual na infância pode trazer conseqüências gravíssimas para o indivíduo. As seqüelas de um abuso se dão principalmente nos campos psicológico e afetivo. “Muitas pessoas acabam reproduzindo, de alguma forma, a violência de que foram vítimas. Não necessariamente como abuso sexual, mas desenvolvem um comportamento mais agressivo”, explica Sônia. Há a reação oposta também: quando a criança se torna um adulto retraído e com baixa auto-estima. Em grande parte dos casos, as pessoas desenvolvem problemas afetivos e, dificilmente, conseguem se relacionar bem com seus pares.

Em todos as famílias, Sônia conversou com a criança, a mãe da vítima e os parentes mais próximos – avós e tios. Para não atrapalhar as investigações policiais, os agressores não foram entrevistados. Com os meninos, a pesquisadora não abordou nenhum tema que pudesse remeter à violência sofrida.