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Solidariedade para sobreviver

Todas as espécies apresentam alguma forma de cooperação. Entre humanos, essa atitude não é uma exceção, mesmo que às vezes pareça: a generosidade é importante até para nossa evolução

 

janeiro de 2014
Martin A. Nowak
Susanne Riber Christensen | Flickr | Getty Images

Os mecanismos que governam a manifestação da cooperação se aplicam a todas as formas de organismo, de amebas a zebras (e mesmo, em alguns casos, a genes e outros componentes das células). Essa universalidade sugere que a cooperação tem sido uma força motora da evolução da vida na Terra desde o início.

Além disso, há um grupo em que os efeitos da cooperação se mostraram especialmente profundos: o dos humanos. Milhões de anos de evolução transformaram uma criatura lenta e indefesa em uma das mais influentes criaturas do planeta, uma espécie capaz de inventar uma alucinante série de tecnologias que lhe permitiu descer às profundezas do oceano, explorar o espaço e transmitir essas conquistas ao mundo em um instante. Fizemos essas conquistas monumentais ao trabalharmos juntos. De fato, os humanos são a espécie mais cooperativa – supercooperativa, podemos dizer.

A pergunta é: o que torna os humanos, em particular, os mais auxiliadores? Os humanos, mais do que quaisquer outras criaturas, oferecem ajuda com base na reciprocidade indireta, ou reputação. Apenas os humanos dominam totalmente a linguagem – e, por extensão, os nomes dos nossos pares –, o que nos permite dividir informação sobre todos, desde os membros próximos da família até completos estranhos do outro lado do mundo. Somos obcecados com quem faz o que para quem e por qual razão – temos de ser para nos posicionarmos melhor na rede social ao nosso redor. Vários estudos mostraram que pessoas decidem sobre tudo, de quais instituições de caridade ajudar até quais empresas iniciantes financiar com base, em parte, na reputação.

A interação da linguagem e da reciprocidade indireta leva à rápida evolução cultural, condição central à nossa adaptabilidade como espécie. À medida que a população humana cresce e o clima muda, precisaremos fortalecer essa adaptabilidade e descobrir formas de trabalhar juntos para salvar o planeta e seus habitantes. Dado nosso atual histórico ambiental, as chances de atingir esse objetivo não parecem grandes.

Aqui, também, a teoria dos jogos oferece insights. Alguns dilemas cooperativos que envolvem mais de dois jogadores são chamados de jogos de bens públicos. No clássico jogo dos bens públicos conhecido como Tragédia dos Comuns, descrito em 1968 pelo falecido ecologista Garrett Hardin, um grupo de criadores de gado que partilham uma pastagem permite que seus animais explorem exageradamente o gramado comunitário, apesar de saberem que isso acabará por destruir o recurso de todos, incluindo o dele. As analogias com as questões do mundo real relacionadas aos recursos naturais – do petróleo à água potável – são óbvias. Se os cooperadores tendem a desertar no momento de arcar com os custos dos bens comunitários, como podemos querer preservar o capital ecológico do planeta?

Felizmente, nem toda esperança está perdida. Uma série de experimentos computadorizados realizados por Manfred Milinski, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva, de Plön, na Alemanha, e seus colegas revelou vários fatores que motivam as pessoas a serem boas gestoras das coisas comuns nos jogos dos bens públicos. Os pesquisadores deram a cada sujeito € 40 e os colocaram num jogo via computador em que o objetivo era usar o dinheiro para manter o clima da Terra sob controle. Os participantes foram informados de que a cada rodada do jogo teriam de doar parte de seu dinheiro para um fundo comum. Ao fim de dez rodadas, se houvesse € 120 ou mais no fundo comum, então o clima estaria a salvo e todos iriam para casa com o dinheiro que sobrou. Se houvesse menos de € 120, o clima entraria em colapso e todos perderiam.

Embora, no fim, os jogadores não tivessem conseguido salvar o clima, ficando poucos euros abaixo do determinado, os pesquisadores observaram diferenças em seu comportamento de rodada a rodada que apontam para o que inspira a generosidade. Eles descobriram que os jogadores ficavam mais altruístas quando recebiam informação confiável sobre pesquisas do clima, indicando que as pessoas precisam ser convencidas de que há realmente um problema para fazer sacrifícios pelo bem maior.

Os jogadores também agiram mais generosamente quando se permitiu que as doações fossem feitas publicamente e não anonimamente – ou seja, quando sua reputação estava em jogo. Outro estudo de pesquisadores da Universidade de Newcastle, da Inglaterra, ressaltou a importância da reputação ao descobrir que as pessoas são mais generosas quando sentem que estão sendo observadas.

Simulações evolucionistas indicam que a cooperação é intrinsecamente instável; períodos de prosperidade cooperativa inevitavelmente dão lugar à deserção destrutiva. Mesmo assim o espírito altruísta parece sempre se reconstituir; nossa bússola moral de alguma forma se reorienta. Não está claro onde nós, humanos, estamos neste ciclo agora, mas, certamente, poderíamos estar fazendo mais ao trabalharmos juntos para resolver os problemas mais prementes do mundo.

Você acabou de ler um trecho da matéria Solidariedade para sobreviver, da edição 252 da Mente e Cérebro. Adquira sua revista aqui, na versão digital ou física, e leia essa e muitas outras matérias na íntegra.