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Tempero do bem

A curcumina, ingrediente do curry, apresenta propriedades antivirais e antioxidantes, úteis na proteção do sistema nervoso

julho de 2017
Gary Stix
SHUTTERSTOCK

VASCO DA GAMA: navegador foi precursor das especiarias na Europa

Diversos compostos naturais – como o resveratrol presente no vinho tinto e os ácidos graxos ômega-3 do óleo de peixe – passaram a ser investigados mais profundamente, depois que pesquisas indicaram seu potencial para proteger o cérebro e prevenir doenças, com a vantagem dos custos baixos e poucos efeitos colaterais. O açafrão-da-índia, pó amarelo-alaranjado da planta asiática Curcuma longa, por exemplo, já não é apenas um ingrediente dos pratos orientais que, desde a antiguidade, dá sabor à comida e evita que estrague. Nos últimos anos, centenas de artigos científicos e técnicos mencionaram componentes biologicamente ativos do açafrão-da-índia – a curcumina – em arquivos como o PubMed, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. 

Há razão para isso. A curcumina e os compostos relacionados chamados curcuminoides apresentam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, antivirais, antibacterianas, antifúngicas e antissépticas, com atividade potencial contra doença de Alzheimer, Parkinson, câncer, diabetes, alergias, artrite e outras enfermidades crônicas. Na Universidade Johns Hopkins estão sendo investigadas as propriedades da curcumina, que podem proteger o sistema nervoso de prejuízos de doenças neurodegenerativas como o Parkinson. Cientistas já observaram que a substância age sobre proteínas que provocam a morte de neurônios: ao entrar em ação, diminui a proporção de células danificadas de 50% para cerca de 20%. 

Apoiado em resultados positivos obtidos em pesquisas com roedores, o pesquisador Greg Cole, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, trabalha atualmente um ensaio clínico em humanos para testar se a curcumina é capaz de impedir o acúmulo de placas amiloides que sobrecarregam o cérebro dos pacientes com doença de Alzheimer. Caso seja bem-sucedido, ele planeja propor formulações a serem misturadas no óleo de cozinha e outros alimentos para impedir a acumulação de placas.  

Por ter muitas vias biológicas como alvo, a curcumina poderia também ser útil em terapias de combate ao câncer, mas como as células comprometidas adquirem lentamente resistência à substância, elas teriam de passar por várias mutações a fim de evitar ataque. Apesar dos benefícios do tempero, alguns estudos sugerem que deve haver precaução, pois o composto, capaz de afetar tantas vias biológicas, pode atingir o “interruptor errado” e causar problemas.

Conhecido como haldi em hindi, jiang huang em chinês e manjal em tâmil, o açafrão-da-índia tem uma história medicinal de mais de 5 mil anos. Ao longo do tempo, foi usado para tratar ferimentos, curar problemas do estômago e “purificar” do sangue. O primeiro registro de pesquisa sobre a atividade biológica da curcumina, na PubMed, data de 1970, quando um grupo de cientistas indianos relatou os efeitos da substância sobre os níveis de colesterol em ratos. 

Na década de 80, a equipe coordenada pelo indiano Bharat Aggarwal, que se destacou nos estudos sobre tratamento de câncer, foi a primeira a isolar duas importantes moléculas do sistema imune – os fatores de necrose tumoral (TNFs, na sigla em inglês) alfa e beta –, identificadas como possíveis compostos anticancerígenos. Essas moléculas podem, de fato, matar células doentes quando empregadas em áreas localizadas, mas, se colocadas para circular na corrente sanguínea, agem como potentes causadores de tumores. Os TNFs ativam uma proteína importante, o fator nuclear kappa B (NF-kappa B), que então passa a estimular uma série de genes envolvidos na inflamação e proliferação celular.

A ligação entre inflamação e proliferação desenfreada de células doentes incitou Aggarwal a voltar às suas raízes. Em 1989, ele se transferiu para o Centro de Câncer M. D. Anderson, da Universidade do Texas, e começou a procurar compostos que pudessem interromper a inflamação e ter efeito anticancerígeno. Lembrando-se de sua juventude na Índia, onde o açafrão era um anti-inflamatório citado na literatura aiurvédica, ele decidiu dar uma chance à especiaria. “Pegamos um pouco na cozinha e jogamos em algumas células. Não dava para acreditar. Bloqueou inteiramente o TNF e o NF-kappa B.”

Mais tarde, Aggarwal publicou estudos mostrando que o bloqueio da via do NF-kappa B com a curcumina inibe a replicação e disseminação de vários tipos de células do câncer. Esse trabalho serviu de trampolim para ensaios clínicos iniciais de pequeno porte no M. D. Anderson, utilizando a curcumina como terapia adjunta para tratar câncer de pâncreas e mieloma múltiplo. Diferentes centros iniciaram ensaios clínicos sobre a prevenção do câncer de cólon e a doença de Alzheimer, entre outras. Os primeiros estudos feitos com células isoladas e em animais mostraram que a curcumina pode agir contra uma gama de doenças inflamatórias, entre elas pancreatite, artrite, colite, gastrite, alergia e febre. Ela também se revelou promissora para diabetes e doenças autoimunes e cardiovasculares. Por ora, ainda precisam ser realizados ensaios clínicos de grande porte para comprovar a eficácia contra câncer e outras doenças. Ainda assim, Aggarwal tornou-se um dinâmico defensor da especiaria, levada pela primeira vez à Europa por
Vasco da Gama.

O M. D. Anderson, instituição líder mundial em pesquisas sobre o câncer, também começou a promover o uso da curcumina de maneira mais intensa que seria de esperar para um tratamento que não passou pelos rigores de um conjunto completo de ensaios clínicos. Na seção de perguntas mais frequentes do site da entidade, sugere-se que os pacientes com câncer adotem de forma gradual uma dose diária de 8 gramas, cerca de 40 vezes a quantidade presente na dieta indiana média, e “ao final de oito semanas, espera-se uma melhora significativa”. Indagado sobre a preocupação com o aparecimento de possíveis efeitos colaterais com uma dose de 8 gramas, Aggarwal disse que ensaios clínicos menores de outras instituições ministraram até 12 gramas. Se houvesse qualquer efeito desfavorável com a dosagem recomendada pelo M. D. Anderson, os pacientes o teriam notificado. Aggarwal, que toma uma pílula de curcumina todos os dias, afasta-se da cautela típica dos pesquisadores antes que tenham sido realizados ensaios clínicos de larga es-cala bem controlados.

O site do M. D. Anderson e a torrente de comunicados de várias instituições sobre as maravilhas da curcumina ignoram uma pequena parte da literatura que aponta para um lado obscuro: a possibilidade de que a especiaria estimule a sobrevivência de células cancerosas. Em 2004, Yosef Shaul, do Departamento de Genética Molecular do Instituto de Ciências Weizmann de Rehovot, Israel, estudava a enzima NQO1, que regula a quantidade de uma proteína bem conhecida, chamada p53. Quando os níveis de p53 aumentam nas células, a proteína institui uma manobra defensiva para o organismo, induzindo as células com câncer a parar de se dividir ou mesmo de se autodestruir. 

CONCENTRAÇÃO ELEVADA

Shaul e seus colegas descobriram que um anticoagulante, o dicumarol, e compostos relacionados bloqueavam a NQO1, o que impedia a p53 de fazer seu trabalho. Os pesquisadores se perguntaram o que aconteceria se expusessem a p53 de células saudáveis e de células da leucemia mieloide a antioxidantes, como a curcumina e o resveratrol. Para surpresa deles, a curcumina, ao inibir a mesma enzima, impedia a p53 de dar às células aberrantes a sentença de morte; descoberta relatada no Proceedings of the National Academy of Sciences. Outros pesquisadores relataram resultados semelhantes. Para responder a es-se grupo de trabalho, Aggarwal cita estudos que mostram como a curcumina, na verdade, ativa a p53.

Os especialistas precisam investigar agora se o trabalho de Shaul em culturas celulares tem relação com o que acontece quando uma pessoa ingere o composto. As concentrações de curcumina usadas pela equipe do Weizmann em culturas de células – de 10 mM a 60 mM (micromolar) – podem ser comparáveis aos níveis atingidos em alguns dos experimentos em cultura celular realizados no M. D. Anderson. Mas como a curcumina é pouco absorvida do intestino para a corrente sanguínea, também é rapidamente degradada no corpo. Um paciente que consuma 8 gramas provavelmente acabará com uma concentração no plasma sanguíneo inferior a cerca de 2,0 mM, observa Shaul, embora esse nível possa variar para mais no trato gastrointestinal e no fígado. Também poderão permanecer em nível elevado se os pesquisadores conseguirem desenvolver maneiras diversas de aumentar a concentração da curcumina na corrente sanguínea.

É sempre fundamental definir a dose de um novo fármaco – qualquer agente terapêutico, incluindo a aspirina, se torna tóxico em níveis elevados. Para a maioria dos novos produtos farmacêuticos, a melhor forma para atingir os níveis plasmáticos desejados é, em geral, encontrada por meio de uma incontável sucessão de ensaios clínicos em culturas celulares e camundongos. Ainda assim, as empresas farmacêuticas não estão em competição pelo primeiro lugar na condução de testes com curcumina. Elas têm preferência por terapêutica com alvos altamente específicos: golpear determinado receptor, por exemplo, pode tratar a doença e, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos colaterais, enquanto um fármaco com várias ações poderia, em teoria, aumentar as chances de que ocorra um efeito indesejado.  

NOVAS SUBSTÂNCIAS

O açafrão-da-índia é um exemplo proeminente de um dos casos mais célebres de biopirataria de propriedade intelectual, que colocou um instituto de pesquisa apoiado pelo governo indiano contra uma patente de 1995 emitida para a Universidade do Mississippi para o uso do condimento no tratamento de feridas. O Gabinete de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos invalidou a patente depois que o Conselho Indiano de Pesquisas Científicas e Industriais questionou se um dos critérios da patenteabilidade – que uma invenção seja nova – havia sido satisfeito. Para fazer a objeção, o Conselho apontou um artigo de 1953 de uma revista indiana sobre o condimento e ofereceu uma citação sobre as propriedades curativas do açafrão de um texto em sânscrito antigo.

O gabinete de patentes emitiu registros para aplicação da curcumina como uma ação isolada. Mas a rejeição implica que as indústrias farmacêuticas jamais obterão uma patente de “produto” com um alcance bem mais amplo, que ajudaria a empresa a se defender de concorrentes com fármacos baseados no condimento. Algumas empresas ainda estão tentando explorar a promessa da substância, alterando a sua composição química a fim de aumentar sua atividade e, ao criar uma nova substância, justificar a proteção de propriedade intelectual.

A AndroScience de San Diego trabalha atualmente em ensaios clínicos com fármacos para acne à base de compostos derivados da curcumina que foram descobertos na Universidade da Carolina no Norte em Chapel Hill. Da mesma forma, a Curry Pharmaceuticals, também da Carolina do Norte, tenta obter financiamento para passar a incluir os derivados da curcumina da Universidade Emory em ensaios clínicos. Mas, numa era de produtos farmacêuticos com alvos específicos, os aventureiros do capital de risco têm se mostrado hesitantes em patrocinar novos medicamentos que atuam em várias vias. Mesmo sendo cofundador da Curry Pharmaceuticals e dono de patentes sobre a curcumina, Aggarwal afirma que os químicos podem ter dificuldade em melhorar a Natureza: é possível que a modificação da curcumina só aumente os efeitos colaterais indesejados nos pacientes. Se a infinidade de obstáculos ao desenvolvimento for superada e a segurança, garantida, a curcumina poderá oferecer uma alternativa econômica aos produtos farmacêuticos predominantes.

PARA SABER MAIS:

The molecular targets and therapeutic uses of curcumin in health and disease. Organizado por Bharat B. Aggarwal, Yung-Joon Surh e Shishir Shishodia. Springer, 2008. 

Multiple biological activities of curcumin: a short review. Radha K. Maheswari et al., em Life Sciences, vol. 78, págs. 2081-2087, 2006. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível em:

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